A Longa Jornada de Mim

A Longa Jornada de Mim

Caleidoscópio

(Conto da escolha irreversível de Pedro)

jul 13, 2026
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Ah, Natasha… Eu me lembro da primeira vez que encontrei Pedro. Pedro, com o mesmo nome que o meu, o mesmo rosto e o mesmo corpo, filho dos mesmos pais, que também nasceu no mesmo dia que eu. Mas em vez de um ano depois, você nasceu vinte anos antes dele.

Eu não acreditei quando o vi, como um reflexo emagrecido de mim, com barba mal feita, olheiras mais profundas que as minhas e um cansaço no semblante, de quem não aguenta mais viver no próprio corpo; mesmo tendo a mesma idade que eu, parecia que já tinha atravessado o que podia aguentar da vida. Naquela sala circular, como o topo de uma torre com o teto arrancado pelo tempo, pairando entre as estrelas e nebulosas.

No chão frio, liso como vidro e duro como pedra, espalhava-se uma mandala luminescente, que dividiu-se em duas metades diferentes quando eu entrei no ambiente.

Eu sei que aquele lugar era implausível, mas mais implausível ainda foi conversar com um eu que nunca fui.

No início pensei que eram apenas sonhos, mas conforme avançamos em nossas conversas as divisões entre as metades das mandalas começaram a se mesclar. Os fragmentos dos cacos coloridos de tons escuros dele começaram a entranhar ao centro das peças douradas e vibrantes de meu lado, que começava a abraçar as cores de sua metade.

Quantas vezes conversamos e debatemos, durante semanas, a cada noite de sono.

Da última vez que eu vi Pedro, ele não tinha dormido. Ele foi para aquela sala porque estava sendo socorrido na UTI, por tentativa de suicídio. E eu imaginei que teria sido por isso. Porque fui eu quem reforçou seus motivos e depois esperou por décadas que ele voltasse àquele aposento. Voltando para aquele caleidoscópio gelado, noite após noite, vendo apenas as minhas cores no chão. Eu voltei porque nunca pensei, Ná, que eu fosse capaz de tamanha crueldade com alguém. E, de todas… logo com Pedro.

Logo comigo.

Foi Pedro quem me matou primeiro. Mas fui eu que retaliei. Fui eu quem planejei devolver redobrado o que ele fez. Fui eu quem o torturou psicologicamente e o trucidou o corpo aos poucos, por dias a fio, naquela sala. Eu sabia que ele não morreria, porque, antes, quando ele me matou, eu simplesmente acordei contigo em nosso quarto, Natasha.

Ele, numa tentativa de desespero, quis me coagir a fazer o acordo. De ele sair pela porta que eu entrei e eu sair pela porta que ele entrou. Porque ele não pode fazer isso se não for de mútuo acordo comigo. Assim o velho nos instruiu. E eu não fiz o acordo, nem reagi às suas agressões. Pedi por diálogo e tentei afastá-lo, até o último momento. Eu não reagi porque eu entendo. Se o que ele me contou é verdade, a vida dele foi uma megera sarcástica e violenta, que não teve misericórdia com a sua história. Depois de todo esse tempo, você consegue imaginar o que teria sido minha vida sem você, Natasha… e a sua sem mim? Desde sempre e para sempre? Sem ninguém que chegasse nem perto do que fomos e nos tornamos um para o outro?

E hoje eu sei que é verdade, o que ele contou… mas não me arrependo. Eu tenho apenas um medo… mas não me arrependo.

Mas que fui eu quem disse a Pedro que a vida dele é uma tragédia por que Deus quis assim. Por que se não fosse a vontade de Deus, não aconteceria; porque o Senhor é o próprio Poder e não cai uma folha que não seja da vontade Dele. E se ele não teve escolha, eu não tenho nada a ver com isso. Se ele é miserável é por que o destino quis assim.

Fui eu que fiz ele se encolher de tanto chorar, antes de lhe chutar as pernas, começar a quebrar os ossos um a um e continuar os discursos, por dias, sob o breu e o brilho pálido das estrelas sobre aquela sala. Minhas cores se apagaram do chão no momento em que fui pra cima dele com a intenção de matá-lo. E as estrelas se apagaram conforme a morte de Pedro se completava. E absoluta foi a teva quando eu finalmente rompi seu crânio no chão.

Disso eu me arrependo.

Não teria feito diferente, porque tinha medo de morrer outras vezes pelas mãos de Pedro. Tinha medo de um dia ceder à conversa dele. De dormir um dia contigo, Natasha, e acordar sozinho na cama dele. E fiz aquilo com Pedro para dissuadi-lo. Para convencê-lo que nunca mais me ameaçasse. De fato, ele nunca mais o fez. Afinal, ele não voltou. Mas eu me arrependo. Porque não foi dele a escolha de ter experienciado as circunstâncias miseráveis que eu não enfrentei. E eu sei que se penso que ele poderia agir diferente hoje, é porque estou isento dos traumas que ele viveu.

E eu pensei tanto nisso, Natasha…
Que decidi voltar para aquela sala todas as noites.
E quando o vi, pela última vez…

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