"Mãe, por que toda criança pobre tem a pele escura e cabelo enroladinho?"
E foi assim que dona Geórgia foi obrigada a falar de tráfico negreiro para Theo, que tinha 5 anos.
Eu não consegui superar as observações que o Theo de 5 a 7 anos de idade fez. Agora, com 32 anos, eu ainda estou comendo os ensinos das mãos dele. Ele, em grande medida, para uns assuntos específicos, é um mestre que me guia nas ponderações éticas sobre as angústias, misérias e desgraças que ocorrem há milênios no mundo, sem apresentar grandes perspectivas de melhora.
Sabe aquele bordão cínico de que “quem nunca foi socialista não teve coração, mas quem ainda é socialista não tem cérebro”? É isso mesmo que vejo nele. Cinismo. Não é que eu seja socialista ou acredite que você deveria ser. Me refiro à afirmação implícita de que, em algum momento, você terá que abandonar o coração para sobreviver ao mundo e suas dinâmicas.
É o tipo de afirmação que a gente sabe que é verdade, mas evita transformar objetivamente em assunto, pra não gerar climão. Por que “gerar climão” é o resultado de expor contradições travestidas e cobertas pelas normas de convivência. É soprar nos olhos a poeira que estava debaixo do tapete. Eu sei que essas normas estão aqui para proteger nossa estabilidade, nos manter funcionais. Mas quando eu lembro de algumas coisas o que o Theo disse aos 5 anos, eu tenho até medo dessa “funcionalidade” toda.
Quando eu lembro do que ele mostrou, eu marejo os olhos e sinto a garganta apertar. E às vezes não consigo ver o que eu posso fazer para ser coerente aos desejos que ele tinha. Mas eu prefiro viver com os olhos ardendo frente a contradição do que aprender a viver sem o coração que ele mostrou que eu tinha.
AVISO DE “TEMA SENSÍVEL” À FRENTE.
O texto a seguir aborda o tema de desespero existencial (desejo de não existência), que poderia ser interpretado como ideação suicida. Este conteúdo pode ser especialmente desafiador para pessoas que:
estão vivenciando tristeza profunda, desesperança ou vazio existencial;
têm diagnóstico de depressão, transtorno bipolar ou ansiedade;
tendem a pensamentos catastrofistas ou ruminação;
estão passando por isolamento social, luto recente, término de relacionamento, ou outras crises de vida.
Se você reconhece alguma dessas situações em si mesmo, considere se este é um bom momento para ler. Preste atenção a gatilhos. O texto não tem a intenção de incentivar pensamentos autodestrutivos.
Se você está em crise ou tendo pensamentos suicidas, procure ajuda: CVV (188), SAMU (192) ou Disque Saúde (136).
O que a criança do Theo me mostrou?
Na verdade eu não lembro de quase nada da minha infância. Teve uns traumas pesadinhos por lá. Mas isso não é assunto para hoje. Isso é assunto para o meu ensaio de renascimento filosófico dentre as alternativas entre querer morrer mais cedo e odiar ter nascido.
O assunto de hoje é sobre um statement emocional sobre alguns assuntos que se estuda na academia sob as disciplinas de História, Ciência Política, Ciências Sociais e Relações Internacionais.
Eu não me lembro das primeiras proclamações opinativas desse statement, mas minha mãe, Dona Geórgia, me conta. Minha mãe nunca me poupou das informações. Que bom. Que bom que ela me educou, que não foi covarde ou hipócrita ao simplesmente evitar o assunto, porque “isso não é assunto para se tratar com criança”. Ela foi duramente criticada por fazê-lo. Mas nunca foi de ficar mantendo convenções que, no entendimento dela, não são boas. Revolucionária do dia a dia, Dona Geórgia.
“Por que toda criança pobre tem a pele escura e cabelo enroladinho?”
Estávamos passando pela periferia de Pirajuí, voltando de São Paulo, como costumávamos fazer. Eu, como de costume, olhando pela janela. Calado, pensativo, “aéreo”. E pertuntei: Doda (nunca chamei minha mãe de mãe, mamãe ou mainha, ela e meu pai me adestraram desde cedo a chamá-la de Doda)… por que toda criança pobre tem a pele escura e cabelo enroladinho?
Cinco anos, eu tinha.
Em retrospespectiva é uma fala até significativa. A criança se afligiu com a condição de pobreza dos outros. Observou várias pessoas nas condições que a afligiam. Identificou um padrão. E se perguntou o porquê disso. Por quê? E ela começou a me falar sobre escravidão e tráfico transatlântico negreiro. Sobre as desumanidades perpetradas contra os seres humanos vindos de África. E a partir daí, vieram as conversas.
Eu era amigo de Maria Lúca Montes, uma senhora de ideias e falas fortes. Sim, eu com meus 6 a 7 anos em diante, batendo papo com uma antropóloga filósofa de quase 60 anos. Fumante inveterada, cuidava de sete gatos e três cachorros num apartamento no sétimo andar, ali em frente à estação de metrô Santa Cecília, no centro de São Paulo. Era minha melhor amiga, Maria Lúcia. Mais amiga que os poucos amigos que eu tive em Pirajuí e Bauru, depois que me mudei para Bauru com 7 anos. Imagine só, se eu tiha aceitação popular perante o crivo dos coleguinhas da escola… mas isso é assunto para outro dia.
Falávamos de política, filosofia, pobreza, arte, religião, controle e outras misérias de questões sociais. Ela, antropóloga e filósofa, gostava de trocar ideias comigo, ao ponto de termos embates sobre o que discutíamos. Nós dois nos testávamos. Eu com 6 anos, ela com 58. Assim como também o era desde então com as conversas minhas com Sheyla, mãe do José Renato.
Até eu chegar no ensino médio, no Colégio Pio X em João Pessoa, com os professores mais críticos de História (e.g. Everaldo Chaves e José Saldanha) e Geografia (e.g. Paulo Vital e Carlos Campos), minha base de desenvolvimento foi com livros aleatórios, reflexões constantes comigo mesmo e as boas conversas que tive. Principalmente com Maria Lúcia, minha amiga. E Dona Georgia, minha mãe. E Antônio Carlos, também, meu pai, mais pelas miscelâneas filosóficas que pela História e sociologia crítica.
“Quando eu tiver muito dinheiro…”
Quando eu tinha 5 anos, fiz um pedido e uma afirmação. O pedido que eu fiz foi quando fomos para o Mini Mundo, lá em Gramado, Rio Grande do Sul.
No final do passeio, tinha uma fonte dos desejos (é da época em que usávamos uma coisa física chamada moeda, talvez você não entenda). O nosso guia terminou dando uma moeda para mim: Vai, pode fazer um pedido. O que você quiser!
Não precisei pensar muito:
Eu desejo que não falte comida nem brinquedo, para nenhuma criança na Terra!
(joguei a moeda)
O nosso guia conteu o choro.
O olho da minha mãe marejou.
Não lembro da reação do meu pai.
Na época, não chorei, nada demais.
Mas hoje, ao lembrar, eu choro.
E essa ideia ficou muito bem fixada em minha cabeça, porque deve ter vindo do âmago de meu coração. Certa vez, ali com a mesma idade, eu afirmei categoricamente para minha mãe, em uma das várias conversas que tínhamos:
Quando eu tiver muito dinheiro… Eu vou construir uma casa bem grande! E nela vão ficar as crianças que estão abandonadas. E lá não vai faltar comida nem brinquedo pra elas.
(perceba que troquei o jogar da moeda na fonte por alguma esperança de poder, para colocar a questão em minhas mãos)
Na época eu não chorei.
Mas hoje, ao lembrar, eu choro.
Principalmente frente a tudo que aprendi e estudei desde então.
Porque eu comecei a estudar os impedimentos:
Por que é que é tão difícil ou inconcebível assim, fazer algo tão simples e necessário? Fazer com que não falte comida nem brinquedo para nenhuma criança na Terra?
E assim como uma pergunta sobre criança pobre negra com cabelo enroladinho levou ao tráfico transatlântico de africanos, o estudo desses impedimentos me levou a alguns objetos de estudo frios, calculistas e tenebrosos. Mal sabia eu que a inanição, fome e adultização das crianças (embora talvez sejam das mais urgentes) estavam longe de ser as piores ou mais abissais das misérias materiais e desgraças existenciais que a humanidade é capaz de produzir e agravar.
Por que minha criança me ajuda até hoje?
Das primeiras impressões do tráfico negreiro pra frente, foi estudo de história, filosofia, sociologia, anarquismo, marxismo, neomarxismo, estudos para paz e liberalismo. E o Theo de 5 anos ajuda, porque aquele fedelho filho da santa já estava certo antes de eu começar os estudos. E quanto mais eu estudo, mais certo ele se mostra.
Ele é minha bússola moral, que me lembra que o mais importante é a sensibilização ao sofrimento alheio. Por que sem essa sensibilização, não há empatia. E sem empatia, não há humanidade. Ele me lembra que isso é o que mais importa, mesmo quando estou febril e nocauteado pelas doses dos destilados psiquiátricos da condição humana que eu mesmo produzo ao estudar as condições de inumanidade e miséria existencial da dita “humanidade”.
Assim como um preço da inteligência é a solidão, um preço da lucidez analítica costuma ser a sanidade mental. Afinal, o estudo da História mostra que o ritmo histórico das coisas é lento: uma análise de um período de 300 anos pode ser um recorte temporal pouco para explicar como e porque algumas convenções e estruturas sociais existem (e.g. racismo), se mantêm e se transformam, na maioria das vezes mantendo sua essência original. Mudam as roupagens e permanece o cerne original, e qualquer iniciativa que seja mais curta que 300 anos costuma ser episódica e tem poucas chances de reverter o quadro.
Meus 5 destilados psiquiátricos da condição humana
Em meu caso, a progressiva degradação de meu bem-estar em relação à vida veio da genuína empatia pelas pessoas em condições de existência degradantes, somada à constatação de minha real impotência para reverter as estruturas e dinâmicas sociais que promovem essas misérias.
A frustração, o fruto dessa constatação irreversível de impotência frente à crueldade humana no mundo, foi a matéria prima da deterioração da satisfação que eu tinha em relação à minha existência.
Aqui está a raiz do meu niilismo (e esse pensamento pressupõe empatia ao próximo): a constatação de que nada que eu faça pode promover alterações significativas (pois o quadro tem piorado) nas misérias sociais que assolam a humanidade faz com que eu conclua que viver não faz sentido. O que não é a mesma coisa que dizer que faria algum sentido se matar, porque isso também não resolve nada.
Essa frustração foi sendo destilada pela minha busca constante e insaciável de refinar meu entendimento sobre essas questões. Até o momento, eu identifiquei 5 frações da destilação deste veneno, chamado frustração.
E uma das perversidades sociais é perceber que “eles” (os normatizados) tentam estirpar sua empatia, negociando com a dor provocada pela lucidez: “você pode parar de sofrer… basta não se importar tanto assim. Afinal, também não adianta sofrer”.
A primeira fração da destilação da frustração é a raiva.
“Frustração”, “indignação”, “raiva”, “ódio”, dentre outros nomes similares, são tentativas de descrever um movimento de rejeição violenta do sistema psíquico ao veneno. Como quem vomita a dose de álcool ao ingeri-lo pela primeira vez. Eu fui uma criança extremamente raivosa, revoltada. E algumas pessoas abandonam esses assuntos, por que percebem que não têm condição de lidar com tamanha carga colérica. Simplesmente retiram os assuntos de suas vidas, para sobreviver “em paz”. Mas eu continuei destilando, estudando. Sabe por quê? Por que me interessa entender os impetimentos, para superá-los. Por que eu não quero que falte comida nem brinquedo, para nenhuma criança na Terra.
A segunda fração da destilação da frustração é a angústia.
É como quando o corpo para de vomitar as doses de destilados que estão chegando. Por que, dada a escolha feita, eles não vão parar de chegar. O jeito é lidar mesmo com eles. Não tem como negar a realidade (essa foi a escolha inicial). Mas isso não significa que o veneno não queime a garganta ao descer. Revoltar-se não adianta. Ter raiva não adianta. Mas a empatia continua lá, que, somada ao entendimento mais profundo dos requintes de crueldade estrutural das manifestações da perversidade humana… gera angústia. E, mais uma vez, ser confrontado por essa nova sensação pode ser motivo suficiente para abandonar o estudo dos temas. Por que é desconfortável mesmo. Mas eu continuei destilando, estudando. Porque eu não quero que falte comida nem brinquedo, para nenhuma criança na Terra.
A terceira fração da destilação da frustração é a apatia.
Uma tentativa desesperada de não sentir a dor que decorre do confronto cada vez mais acentuado entre a empatia e vontade de mudança versus o entendimento cada vez mais pleno da impotência para se fazer algo. A pessoa tenta se tornar cética, irônica, dissociar-se, na tentativa de aliviar o próprio sofrimento, gerado por sua própria empatia em confronto com a perversidade inevitável e inumana que é imputada às massas. Aqui já começa até a ficar improvável o abandono do processo de destilação. Por que já é uma tentativa de reconfiguração de personalidade para lidar com essa tensão existencial.
A quarta fração da destilação da frustração é a depressão.
Tristeza profunda, melancolia. Superados os rompantes furiosos. Vivenciada a angústia a tal ponto que a pessoa quer negociar a dor com a promoção de seu próprio ceticismo e apatia… E persistente o fato da frustração frente à impotência de exercer a empatia num nível que seja significativo para as massas sofredoras. Ciente de que o cenário não apresenta perspectivas de melhoras, independente do que se faça. Vem a depressão. Porque a empatia continua pulsando, forçada a existir num ambiente que lhe é hostil. A raiz da dor persiste. A anestesia cética é uma ilusão paliativa.
A quintessência da destilação da frustração é o desespero existencial.
Aos que não sucumbem à depressão, vem uma convulsão delirante. Como resultado de uma forte e febril resposta imunológica à tristeza que seria capaz de acabar com a própria vida da pessoa. Uma reação visceral de tentar atacar a raiz dessa contratição: a própria existência. Ora, se não posso fazer nada e não estou disposto a abrir mão da empatia ou do avanço do entendimento, então é melhor que eu não tivesse existido! Ou, se o que está acontecendo realmente já é o melhor que um Poder Superior supostamente benévolo pôde criar, seria melhor que toda a existência cessasse! Se esse sadismo é o grau mais alto do amor, é melhor que se incinere toda a condição de existência. O desespero existencial, o desejo profundo, clamante e visceral pela não existência, é uma última tentativa lógica de lidar com a incongruência ética da inumanidade em massa deste mundo.
Até o momento, são essas são as frações de destilados que conheço, cinco delas, da frustração decorrente da constatação empática e irreversível de impotência frente à crueldade humana no mundo.
E eu tenho disposição para enfrentar esses processos de destilação. Por que eu quero entender. Eu preciso entender. Quem me dá disposição é o Theo de 5 anos, que me deu o posicionamento ético inicial para enfrentar esse processo. Ele me mostrou que sensibilização ao sofrimento alheio não é negociável. Empatia não é negociável. Humanidade não é negociável.
Eu buscarei esse entendimento mesmo que ele acentue meu sofrimento. Eu quero saber o que eu realmente posso fazer para promover maiores mudanças nesse cenário de promoção sistêmica de miséria humana das massas.
Por que eu não quero que falte comida nem brinquedo, para nenhuma criança na Terra. É demais, querer isso?
Antes das complexidades, ela já sabia o que importava…
Achando pouco os comentaristas de Durkheim, Marx e Bakunin no ensino médio, fui fazer graduação em Relações Internacionais, para saber mais sobre história mundial e ciência política aplicada ao desenvolvimento do moderno sistema-mundo, com algum desenvolvimento sobre análise dos sistemas-mundo, Estudos Para a Paz (se você ler os textos inauturais de Johan Galtung, verá que ele é mais radical que Marx acerca de reivindicações de mudanças estruturais, mas com uma proposta isenta de necropolítica) e políticas internacionais sobre drogas (que é o segundo mercado mais asqueroso que a humanidade mantém, depois do armamentista).
Não estou dizendo isso para tentar me colocar num estandarte, pretendendo estar acima de alguém. Mas para ilustrar que essas décadas de estudo interessado, hoje mais de 27 anos contínuos de estudo contumaz sobre as misérias políticas e socioeconômicas humanas, já rendeu alguns frutos bem tangíveis.
E um de meus maiores indícios de alguma plasticidade cognitiva é o fato de que hoje, mesmo com vorazes críticas a injustiças sociais, eu faço a gestão de alguns milhões de Reais em investimentos financeiros de meus clientes, através de uma gestora de recursos que opera na Faria Lima. Afinal, ideologia e posicionamento ético não paga boleto e eu sei sim ser pragmático.
Então eu entendo que relações sociais podem ser e são complexas. E, ciente disso, tenho nojo dos discursos que começam com um:
“Olhe, meu filho, é que não é tão simples assim…”
(num contexto em que querem me convencer a ser menos sensível ou empático, pois, afinal, “não adianta”)
Malditos e infelizes os que tentaram me convencer disso.
Malditos porque, conscientes ou não disso, tentaram me desvirtuar.
Infelizes porque não conseguiram.
… as lembranças dele são um convite constante à sensibilização.
“Não é tão simples assim”…
Se esse discurso é para tentar me incitar à dessensibilização ou indiferença às misérias que vejo e estudo, mesmo que seja “só para você seguir com a vida, porque se você não pode fazer nada é melhor deixar para lá”… pode voltar rastejando de volta do inferno de onde veio! Você, que se opõe à sensibilização sobre as misérias do outro, inibindo o avanço de posicionamentos compassivos. Você, Satanás (no sentido literal de opositor, neste caso opositor à condição da dignidade humana).
Fique você, com sua indiferença.
Se essa é sua melhor estratégia, use-a para sobreviver.
(Apenas saiba que a frigidez do cinismo é asquerosa.)
Mas não ouse querer corromper quem ainda sente!
E mais, dos que sentem, os que ainda querem sentir!
Claro que é simples! Até uma criança consegue ver.
Nada do que eu vi foi anulado pelos estudos que fiz.
Nem os fatos nem a impotência para poder mudá-los.
Eu lembro o quanto eu chorava, gritava, me chocava.
O quanto eu era “raivoso” e só falava nesses assuntos.
E como eu tive que calar os gritos para ser aceito.
A aparente “raiva” constante que eu sentia era frustração.
Que vinha da sensação de absoluta impotência.
Nascida da constatação de que eu não poderia fazer nada para resolver coisa alguma.
E que as pessoas mais velhas pensavam diferente de mim.
E tentavam me doutrinar, pouco a pouco, a pensar como elas.
Como elas, que pensam exatamente como as pessoas que fazem a manutenção consciente e inconsciente do status quo.
AH!
Dizem que não tem nada a ser feito, por que não encontraram a resposta. E recusam a inquirição, porque dói reconhecer a impotência frente ao que realmente uma pessoa não pode mudar, porque esse reconhecimento pode trazer doses altamente incômodas de frustração.
Os que já intuem que não têm condições de fazer nada, começam a dizer que é melhor não pensar no assunto. Por que a dor da lucidez já lhes fere os olhos. E o prenúncio de entendimento de sua própria impotência já lhes antecipa uma angústia irremediável.
Pois então fujam.
Eu sei que dói, a destilação da lucidez. Weber mesmo (sim, Max Weber), é um exemplo emblemático de como a lucidez sobre processos sociais, políticos e históricos pode cobrar o preço da sanidade mental e, com ela, a saúde do corpo.
Não estou aqui para julgar. Mas querer incitar que outros também sejam covardes junto contigo? Vale a pena mesmo ter nascido, para fazer um desserviço desses?
Eu ainda não sei o que eu vou fazer.
Mas eu não retiro o que disse.
Eu não quero que falte comida ou brinquedo para nenhuma criança na Terra.
ALQUÉM AÍ VAI QUERER TENTAR ME CONVENCER QUE ISSO NÃO É A LINHA MAIS SENSATA DE PENSAMENTO QUE UM SER HUMANO (HUMANO DE FATO, NÃO INUMANO ENRUSTIDO) PODERIA DESENVOLVER?
Alguém aí vai se arvorar a me incitar a dessensibilização ao que o Theo de 5 anos me mostrou que deve ser sentido?
Pobre e infeliz de ti, retardatário.
Estou em rumo de inteirar meus 33 anos de existência por aqui, em plenos 27 anos de irredutibilidade opinativa. Já é tarde para que tentes. E não seria o primeiro nem o segundo, nem sequer ainda o centésimo a falhar em tão maldita empreitada. Volte rastejante para o inferno de onde veio.
E se você chegou até aqui sem cancelar sua inscrição, parabéns.
Agora você tem o dever moral de ler este soneto, à luz da reflexão que fizemos:
Essa foi uma opinião existencial de A Longa Jornada de Mim.
Gostou?
(Eu coloco minha alma e coração aqui toda semana. Toda contribuição sua, pontual ou recorrente, é bem-vinda. Já te agradeço!)
P.s.: Em específico, para que conste que eu posso sim ter alguma noção de que, de fato o mundo pode “não ser tão simples assim”:
A revisão de literatura sobre Análise dos Sistemas-Mundo no Academia.edu que eu fiz com meu colega Lucas Maximo em 2014 continua rendendo notificações de leituras até hoje no meu e-mail.
O paper de inovação de metodologia de pesquisa em Estudos Para a Paz que eu publiquei com meu orientador num periódico qualis A3 em 2015, também.
O artigo que descreve a degradação econômico-social que levou a cenários de violência preocupantes no Peru e Equador de 2006 a 2013 foi publicado na Revista de Iniciação Científica de Relações Internacionais à guisa de premiação num evento, em que o avaliador do paper, Dr. Fabio Nobre, pensou que se tratava do adiantamento de um capítulo de resultados para minha monografia (não era, era apenas o relatório de um bom projeto bolsista de iniciação científica).
Ao avaliar a monografia de 101 páginas sobre o Regime Internacional de Controle de Drogas na ONU (além de o trabalho ter recebido nota máxima), uma das avaliadoras, Dra. Silvia Garcia Nogueira, disse que o trabalho estava no nível de uma boa dissertação de mestrado.
Eu sei que “não é tão simples assim”. Mas a complexidade da realidade sócio-política nunca foi desculpa para negligenciar minha humanidade e empatia.
Talvez…
Se te interessa minhas razões e funcionamento interno mais intrínseco, vale ler o que eu revelei ao final desse artigo:
Por aqui eu falo de muita coisa que não é desespero existencial e angústia. Se você gosta de reflexões intimistas, histórias e contos, crônicas, opiniões existenciais, e ensaios, críticas e resenhas, de temas variados, com essa mesmíssima pegada de redação e uns lirismos a mais nos poemas, o ritmo é esse:
Um post por semana, aos sábados.
A grande maioria deles, gratuitos.
Poesia às quartas-feiras. Sempre gratuita.
A Longa Jornada de Mim só tem alma e propósito com vocês, leitores(as). Inscreva-se gratuitamente para participar da Jornada. Vou te enviar um e-mail de boas-vindas personalizado, tá? Não é aquele e-mailzinho padrão xexelento do Substack não. É para quem escolheu participar da Jornada mesmo.

P.p.s.: Se você quer participar e apoiar esse trabalho, existe uma forma: uma inscrição paga. Porque escrita artesanal, sem IA, bem cuidada e curada precisa de apoio sim. Pelo preço de um YouTube Music (e descontos para grupos), você tem:
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Um espaço de conversa exclusivo nos posts mais íntimos, um ambiente seguro e longe da vitrine dos comentários públicos;
Acesso ao meu processo criativo, o que eu leio, penso e sinto para produzir… coisas que ninguém mais verá em livros, posts ou notes;
E o mais importante de tudo…
Além dos benefícios da comunidade exclusiva de apoiadores, você está financiando as doses endovenosas de humanidade que chegam para todos que escolheram participar da Jornada. Inclusive os que ainda participam dela gratuitamente.
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© 2026 Theo Sant’Ana. Este texto é protegido por leis de direitos autorais. A reprodução total ou parcial não é permitida sem autorização expressa do autor.




Eu gostei do seu texto! É de uma verdade interior belíssima! Tem a ver com a expressão do absurdo de Albert Camus em o Mito de Sisofo. Ja leu? Grata! Por mais como este.
“Eu não quero que falte comida ou brinquedo para nenhuma criança na Terra.”
Quem disser que essa criança está errada no pensamento e disser que ajudar pelo menos uma pessoa não ajuda, está errado.
Sempre tive essa consciência desde pequena e passei esse conhecimento aos meus filhos.
Desde pequenos ajudamos crianças carentes, e frequentamos orfanatos, favelas, e inclusive a prisão feminina e os filhos das presas.
O que seria da humanidade, sem essas pessoas que ajudam o próximo?
Pessoas leem livros de história e romance tipo “um desconhecido me ajudou e salvou a minha vida “, acham lindo mas não fazem nada mesmo sabendo que seu vizinho ao lado sofre fome.
E tanta gente não sabe o que significa ter fome. Infelizmente eu sei e qualquer hora escrevo sobre isso, precisava encontrar as palavras certas. Sou paulistana mas depois de casada (com o ex) fui morar no Nordeste. E morar no Nordeste e não ver a fome esfregada na sua cara constantemente, é ser cego espiritualmente e mentalmente.
Lindo texto, eu amei! 🥰♥️
Parabéns Theo!