A Longa Jornada de Mim

A Longa Jornada de Mim

Mas todo homem, mulher? Todo mesmo?

[SPOILER:] Esse NÃO é um discurso daquele argumento batido para passação de pano, de “nem todo homem”.

Avatar de Theo Sant'Ana
Theo Sant'Ana
abr 25, 2026
∙ Pago

Ainda há lugar seguro ao romance para homens e mulheres? Gosto de conversar com mulheres, com e sem finalidade romântica. E tenho 3 questionamentos para compartilhar contigo, mulher. E contigo, homem.

Esse texto é mais direcionado às mulheres e moças, mas também aos homens e moços de plantão… talvez por que haja mais mulheres que homens no mundo. E eu gosto de vocês, moçoilas. Homens e moços, não tem como voltar atrás. Se você não sabe do que está acontecendo com os afetos das mulheres, será arrastado por fenômenos sociais desconhecidos e enigmáticos (não recomendo essa experiência, é extremamente desagradável).

Vou falar aqui sobre algumas percepções que tenho sobre o lugar e a devida conduta de homens e mulheres numa sociedade machista, querendo ou não superar o machismo e suas consequências.
Mas trago mais perguntas que respostas.

Desenvolverei aqui 3 perguntas que podem ser altamente incômodas:

  1. Você consegue distinguir o estrutural do individual?

  2. É possível independência sem ressentimento?

  3. É possível ter clareza sem paranoia?

Esse texto é aplicado aos relacionamentos de intenção romântica (para mim, relacionamentos “afetivos” são mais amplos que os romances, e intenções de envolvimento erótico e sexual são subtópicos do romance). Dificilmente você conseguirá extrapolar as ideias daqui para relacionamentos de outra natureza (parabéns se conseguir, mas não redigi com essa intenção).

AVISO: Assunto sensível à frente.

O assunto em pauta é um campo minado, um labirinto. Assunto extremamente delicado, que exige muito cuidado ao ser tratado e eu só estou escrevendo por que eu quero entender esse labirinto na minha cabeça, para sair dele sem me estourar inteiro. É um campo espinhoso mesmo, por que mexe com muitas emoções, nem sempre as melhores. E não tem como falar dele isento(a) do emocional. Inclusive, acredito que a solução não seja racional, mas sim pelo apaziguamento das emoções.
Ainda assim, é necessária também a clareza mental.

Inclusive, coloquei um paywall para não sobrecarregar a área de comentários. Se você quiser dar algum comentário sem pagar, vai ter que mencionar ou fazer Restack para me ajudar a viralizar.

Abrirei mão aqui de ironias.
O que eu disser que te pareça estranho, interprete como literal. Espero que você entenda que minha intenção não é jogar gasolina no fogo. É mais um convite para observar o incêndio de longe, para compreendermos da melhor maneira possível o cenário, e saber se queremos apagar as labaredas ou deixar que elas consumam o campo.

Eu acredito, sim, que é melhor lutar para superar o machismo. Mas nós sabemos, eu e você (homens e mulheres, moços e moças), que apreender intelectualmente um problema é muito diferente de saber como superá-lo, que é muito diferente de superá-lo na prática, que ainda é muito diferente dos comportamentos que empenhamos na intenção de superá-lo. Ainda mais quando falamos sobre o que cada indivíduo pode fazer sobre fenômenos coletivos.

Então, tenhamos calma.

Lembre-se: é só informação.
É apenas a minha subjetividade expressa.
Se você leva suas ideias a sério como parte de sua identidade, não leve minhas palavras a sério. Agora, se você sabe entreter a estruturação de um pensamento sem se identificar com ele, leve a sério a construção que faremos aqui.

Eu considero 6 padrões mentais que arruinam qualquer relacionamento, uma leitura indispensável para falarmos da questão. É rápido, objetivo e de leitura acessível:

Esses padrões são aplicáveis de relacionamentos de qualquer natureza (diferente do presente texto), independente de escolhermos analisar a sociedade pelo enfoque de avaliação do machismo ou não. Como eles são mais abrangentes e transcendem esse enfoque temático (machismo), é bom tê-los em mãos para manter a visão aberta.

Preparadas e preparados?

Só para deixar claro:

Não ouça o que as pessoas dizem.
Ouça o que as pessoas fazem.

Esse bordãozinho carrega uma verdade profunda. Quando eu falo aqui de “querer fazer” algo, me refiro à prática de fato. “Querer fazer” é o que foi feito mesmo, não o que foi dito sobre o que se deveria ou que teria que ser feito. Não importa aqui o quanto alguém diga que “quer” alguma coisa, se na prática seus comportamentos forem numa direção divergente do pretendido ou não saíram do lugar.

Inclusive, se você me conhece pessoalmente, coloque este texto que eu estou escrevendo à prova do meu comportamento. E me entregue o feedback.

Em outras palavras… no bullshit, ok?

1. Você consegue distinguir o estrutural do individual?

“Todo homem tem um comportamento emocionalmente dissociado e costumeiramente psicopático com as mulheres.”

“Todo homem é criado para ter um comportamento emocionalmente dissociado e costumeiramente psicopático com as mulheres.”

“A maioria dos homens são criados para ter um comportamento emocionalmente dissociado e costumeiramente psicopático com as mulheres.”

Percebe a diferença?

Amigas minhas, a maioria de boa vontade, já estão cansadas de rebaterem o argumento de “nem todo homem”, como se fosse sempre uma tentativa de dizer que machismo não é realmente uma questão social e passar pano para a situação.

Não é esse o caso aqui.
O meu ponto aqui, para alguma mulher que esteja procurando um homem com finalidade romântica, é:

  1. Se você tomar o todo pela maioria (ao olhar para cada homem, você vê “todo homem”), os bons levam a fama dos maus e o que era difícil se tornará impossível.

  2. Eu entendo que se abrir para explorar novas possibilidades pode significar riscos (inclusive, mas não apenas) até de morte para ti. E deve ser frustrante conversar com homens que se esquecem desse fato ou não percebem isso ou se negam a reconhecê-lo (mesmo com as crescentes taxas de feminicídio, sem mencionar outros abusos físicos e psicológicos).

  3. Isso não muda o fato de que, se você olhar para um homem e no lugar dele você ver “a sociedade machista” ou “todo homem” (ou seja, sobrepor o que é estrutural de uma maioria sobre todo caso específico, individual), você invalida as possibilidades positivas que aquele indivíduo poderia manifestar ou te oferecer.

Considerando o ponto 2, não consigo te julgar por fazer isso.

Mas você entende que o viés de generalização, além de te colocar numa sinuca de bico, é uma escolha pessoal, certo?
Sim, mesmo que subconsciente ou até mesmo inconsciente. Não é assim que acontece com a cultura de criação comportamental machista? E o homem não deveria ter responsabilidade pelo reconhecimento e mudança de sua conduta, mesmo que inconscientemente inculcada desde a infância? (Sim, eu realmente penso que sim! Essa não foi apenas uma pergunta retórica.) E a generalização de “todo homem”, quem se responsabiliza por ela?

1.1. E aí, mulher?

“Mas o cara tem que superar os comportamentos machistas, superar o machismo dentro dele, a cultura em que ele está imerso, a criação de funções sociais que ele foi adestrado a fazer. Enquanto isso não acontecer, a situação não muda.”

Verdade. Mas essas superações seriam resultado de um processo continuado e determinado de uma vida inteira, correto?
Ou você já quer ele 100% desconstruído e 100% reconstruído, todo prontinho e resolvido?

O que você quer exatamente?
Um além-homem, um übersmensch capaz de superar todas as construções sociais e ideológicas que ele atravessa e que lhe atravessam, que lhes são impostas por quase todas as estruturas, campos e indivíduos da sociedade desde que ele foi concebido? E, ainda por cima, com a disposição que Nietzsche (a coisinha mais próxima que tivemos de übersmenchery) teve, de ser brutalmente rejeitado até o fim?

Mesmo que isso existisse, quantos desses caras você acha que poderia se dar ao luxo de rejeitar? Por que era até razoável, mas não era o que eu queria?

Isso parece muito mais um ideal de receptáculo de repasse de traumas do que um parceiro romântico.

Um cara razoável e disposto a melhorar, você aceita?
De verdade, um cara que realmente quer melhorar, que age nessa direção. Não estou falando de dissimulados que se fazem de desconstruídos ou galãs para predar as moças e no fim das contas despejam suas invalidações emocionais nelas.

Um cara razoável e disposto a melhorar, você aceita?
E tudo bem se você nunca mais quiser lidar romanticamente com mais nenhum homem na sua vida. Eu sei que essa é uma alternativa real, digna, que pode ser escolhida com tranquilidade por quem está bem resolvida com a questão.

Mas se você não aceita um homem disposto de facto a melhorar, do ponto em que ele está, também não diga que você ainda quer um romance ou um relacionamento afetivo funcional a essa altura do campeonato… Por que é impossível que você queira um relacionamento desse tipo, se você não estiver disposta a desconstruir um padrão mental que o inviabiliza (neste caso, o perfeccionismo).

1.2. E aí, homem?

Nem vou falar da possibilidade de você pensar que “toda feminista” não presta. Esperava mais maturidade de ti.

Mas e se um dia, homem, você caísse nessa ideia de ficar sobrepondo questões estruturais do machismo por cima dos valores de toda a sua pessoa? E se você identificasse a sua própria pessoa com o problema da sociedade machista? Seria um dia ruim de se viver.

Ai de ti, no dia em que te sentires culpado por pensar que tua personalidade inteira é apenas um subproduto de uma sociedade machista e feminicida. Por que se isso fosse verdade, seria inviável a tua remissão.

Ai. Ai de ti, porque essa culpa te aprisionaria a um senso de inferioridade, de quem se reconhece errado por ser de um grupo opressor frente a um grupo oprimido.

Ai. Ai. Ai de ti, se por esse senso de inferioridade, ainda por cima, quiseres buscar a validação externa de teu progresso com aquelas do grupo oprimido. Por que a natureza das interações que partem da inferioridade sempre rejeita a sua própria dignidade. E uma busca incondicional de validação é um sintoma grave de dependência.

Ai ai ai, ein?

Melhor é não ser opressor (leia-se: de fato não perpetrar comportamentos opressores e não posar de desconstruído, responsável ou comprometido… sem o ser), pois assim não há como se identificar com aquele grupo. Saia da zona de fogo. Buscar ser um cara razoável, de verdade, já te fará um gentleman, jóia rara nos dias de hoje.

E se você não estiver nessa busca, então realmente muito de sua personalidade poderia ser identificada como o problema da sociedade machista. E também seriam, esses, dias ruins de se viver.

Compartilhar

2. É possível independência sem ressentimento?

O sistema machista se caracteriza fortemente pela dependência e/ou pela chantagem pura e simples através de intimidação e agressão (embora não seja o único sistema de controle que se apoie nessas dinâmicas). As relações nesse sistema, via de regra, são construídas sobre carência e insuficiência. De validação emocional, de renda, de moradia, de segurança, ou de negociação de postergação das agressões. Então…

  1. Mulher, sua narrativa de liberdade é positiva ou negativa?

  2. Homem, você consegue lidar com a liberdade feminina?

2.1. Existe alforria sem lembrar do cativeiro, mulher?

Libertar-se das amarras do machismo é uma grande conquista.
E a pergunta é: Você vê essa liberdade por uma narrativa positiva (o estado de liberdade em si e as beneces que vêm com ele), ou uma narrativa negativa (o estado de não estar mais aprisionada àquele sistema)? Você está livre mesmo ou continua em estado de fuga? Porque plantar uma narrativa negativa de liberdade provavelmente trará frutos de medo, angústia, frustração e ressentimento.

E aí?
É possível “se libertar” sem querer continuar escapando ou lembrando da prisão? É possível independência sem o ressentimento? (Pergunta genuína aqui. Não faço ideia de como vocês se sentem.)

2.2. Homem: Ela realmente não precisa mais de ti! E agora?

Vixe.
Leia mais uma vez, esse cabeçalho.
Nossa…
Ainda mais em negrito!
Leia, leia mais uma vez!

Emocionalmente, economicamente, financeiramente, o jogo virou. Há décadas que está virando. Elas chegaram no mercado de trabalho, têm suas próprias casas, suas próprias vidas. Mesmo que ela esteja contigo, ela pode fazer tudo sem precisar de ti. E aí? Vai sabotar o crescimento dela? O que você vai fazer sobre isso? Você realmente acha que tem alguma coisa que você possa fazer? Sem apelar para a violência (física, verbal, psicológica, emocional), claro.

Chega a dar uma sensação de… pânico, né?
Eu sei como é. A maioria dos homens não faz nem ideia de que laços relacionais podem ser construídos fora da dependência. E muitas vezes, sem nem se dar conta, ficam fortemente ressentidos com a independência feminina. Doidera, ein? Daria até para fazer um texto fofinho sobre admiração, respeito, e não ser precisado e ainda assim ser escolhido, mas o papo hoje é outro.

E sabe o que tem muito a ver com isso?

Aquela postura arrogante que as mulheres começaram a ter de um tempo para cá, que aquele feminismo emancipacionista nojento colocou na cabeça delas: a misandria.
O ódio aos homens.

(É mais ou menos assim o diálogo mental de quem acredita nesse tipo de besteira.)

Por que você acha que misandria existe, né?
É claro que misandria existe… né?
Só não é uma questão social (quantitativa e qualitativamente falando) como a misoginia… Mas é claro que é possível, uma mulher odiar um homem só por que ele é homem… Né?

Sinceramente?
Me parece teoricamente possível, mas ainda não existe de fato. Numa sociedade em que a norma ainda é o machismo, me parece que ainda não há comportamento de aparente “misandria” que não esteja (em verdade, sob um olhar mais atento) carregado dos traumas e ressentimentos à misoginia (ódio e maltrato às mulheres porque são mulheres, o padrão comportamental típico de uma sociedade machista).

Muito, inclusive, do que possa parecer “misandria”, na verdade pode apenas ser ela vendo “todo homem” quando olha para ti, em lugar de te ver (se você realmente não for como “todo homem”). Sentindo o ressentimento de uma emancipação negativa, ou comprando o ressentimento dessas narrativas que contaram para ela.
Enfim, já vi muito resíduo pós-traumático feminino, que abrange até repasse de traumas (que precisam sim ser tratados!), mas ainda não vi misandria.

Pensa aí nessa.

Compartilhar

3. É possível ter clareza sem paranoia?

Talvez o desencanto te escravize.
Quando você decodificar os costumes e razões por trás das ações. Quando ver a lógica social, estrutural, que se esconde sob os comportamentos individuais… Talvez as coisas percam sentido para ti. E os questionamentos internos podem tomar uma proporção próxima à paranoia.

Ele está sendo gentil ou é só o primeiro passo para me tornar dependente?

O que eu posso oferecer para essa mulher não me abandonar? (aqui ele finalmente descobriu aqui a necessidade de validação além da dependência)

Eu posso relaxar com ele ou ele vai predar a minha leveza?

Faz sentido pagar um jantar para ela?

Vale a pena deixar ele abrir a porta para mim?

Tudo ganha um novo peso.
Por que a clareza traz contraste, nitidez e brilho às impressões. E a extrema lucidez pode acabar polarizando tudo, afiando as pontas de todas as arestas, fulminando os olhares. De repente, os lúcidos trocam um caminho gramado por um vale de agulhas, porque quiseram muito ver tudo com muito mais clareza. E este vale torna-se um ambiente dilacerador dos afetos.

É possível, ainda, se aproximar do outro com leveza sem desver todos os questionamentos que fizemos até agora?

3.1. Você consegue, mulher?

É possível que a clareza seja o fim do romance.
Tudo bem, você não precisa ser um tonhão raivoso que refuta a gentileza dos homens, com eu não preciso que você abra a porta para mim! e outras grosserias (o termo “tonhão” é maravilhoso, grato Poliana).

Mas há outras formas mais sutis de negar o romance quase sem perceber, só porque seu grau de clareza sobre o assunto aumentou.
Você consegue olhar para um homem sem cobrir ele com a imagem de “todo homem”? Se emancipar com uma narrativa positiva, sem se ressentir? Se entregar sem confundir entrega com submissão? Querer alguém sem se isolar com o perfeccionismo de suas expectativas sobre relacionamentos?

3.2. Você consegue, homem?

Consegue abrir mão da misoginia e se perguntar todo dia se realmente não está com algum hábito que trai suas intenções? Consegue lidar com toda essa desconstrução sem se sentir atacado em sua própria personalidade? Conceber a possibilidade de criar laços afetivos sem depender dela ou da dependência dela? Sem se identificar com “todo homem”, na sua cabeça e no seu comportamento? Compreender que algumas expectativas das mulheres, que você nem sabia que existiam, são legítimas e vai dar trabalho? Consegue ser razoável e querer melhorar?

Conclusão: Perdidos num campo minado?

O trágico disso tudo, parece, é que as almas sensíveis estão se fechando aos encontros de bons pares, por não quererem mais tatear neste labirinto minado que se tornou a questão.

É claro que a estrutura em que nos encontramos não é boa e não faz bem, mas movimentos de rebordose revanchista só pioram a situação. Então fica o questionamento final…

Avatar de User

Continue lendo este post gratuitamente, cortesia de Theo Sant'Ana.

Ou adquirir uma assinatura paga.
© 2026 Theo Sant'Ana · Privacidade ∙ Termos ∙ Aviso de coleta
Comece seu SubstackObtenha o App
Substack é o lar da grande cultura