O nome dela é Joana, parte 3
O que aconteceu antes de eu nunca mais ver Joana.
Eu espero que você não me odeie como eu me odiei. Eu espero que você não me despreze como eu me desprezei. A culpa e o remorso frente ao que fiz, só eu posso sentir. Culpa é uma coisa completamente inútil, peso desnecessário. Mas a marca patente do remorso genuíno é o arrependimento, retificação de conduta. O remorso, então, é louvável. Mas para buscar a trilha do remorso eu tive que sair do poço da culpa. E aqui eu vou te contar sobre como caí nesse poço.
Você, olhando de fora, poderá sentir repulsa, apiedamento ou compaixão. Eu acho degradante o apiedamento, prefiro a repulsa. Ao menos foi essa a rota que eu adotei comigo mesmo. Mas sua compaixão… você tem mesmo motivos para me dar esse voto de confiança? Você me conhece, por acaso? E com a narrativa de construção da culpa, que eu tenho a seguir… será que seu motivo para compaixão não será traído? Por que essa é a narrativa que eu conheço para essa história, seguida pelos esforços para sua superação.
A única coisa que te peço é se comprometa comigo. Por favor, não leia essa parte se não tiver o compromisso de me acompanhar até o epílogo dessa história. Eu vou abrir meu coração sobre um período que foi tão feio para mim que demorou anos de autoanálise para eu sequer conseguir olhar para ele com alguma lucidez! Não leia a pior parte de mim sem saber o que fiz para melhorar ao longo dos dez anos que vieram a seguir. Não faça isso comigo! Não me deixe aqui sozinho no atoleiro do pior que fiz sem se comprometer com a possibilidade de minha redenção!
Por favor!
Eu estou te pedindo mesmo!
Eu estou pedindo agora, porque daqui a pouco eu assumo o papel do narrador analítico, e é possível que as coisas fiquem tensas. Vai ficar emocionalmente complexo. E eu não vou voltar aqui para esse lugar de fala para quebrar a narrativa depois que eu começar. Então não me abandone aqui! Não me deixe sozinho!
Okay?
Okay…
Okay.
Vamos lá.
Se você não leu ou não se lembra dos detalhes das partes anteriores de O nome dela é Joana, relê-las enriquecerá a sua leitura daqui para frente. Afinal, desde a redação da parte 1, o grosso do epílogo já estava praticamente pronto.
Inferioridade
Antes de continuarmos, seria interessante que você lesse 6 Padrões mentais que arruinam qualquer relacionamento. É um texto simpes, acessível e… necessário. Há conceitos nele que embasam a filosofia narrativa de toda a história da série O nome dela é Joana, de agora em diante, até seu epílogo.
Estamos na mesma página, certo?
Então serei direto contigo.
Vou entregar logo o resultado de 7 anos de autoanálise, pra facilitar: Eu era um cara legal. Mas não acreditava que era. E por conta disso, passei a agir como aquilo que acreditava ser.
Sabe o que acontece com alguém que acha que todo mundo está acima dele e se sente diminuído por isso? Começa a ser invejoso, ciumento, ressentido. Além de que eu era viciado em validação externa (mais sobre isso no epílogo). Sempre queria mais.
Eu demorei muito para entender porque expressei comportamentos tão chulos durante aqueles meses de reencontros e desencontros com Joana.
Foram anos para eu ressignificar na minha cabeça os rótulos de “imaturo”, “idiota”, “cafageste”, “canalha”, dentre outros… até finalmente entender que foi simplesmente síndrome de inferioridade. Que, sim, é um tipo de imaturidade que pode levar a comportamentos idiotas (limitados, digamos), potencialmente canalhas e tudo mais. Mas saber enquadrar o problema faz toda a diferença. E por muitos anos não tive a sorte desse enquadramento. Apenas o peso da perda que me provoquei.
Culpa
Onze anos depois que tudo acabou de vez, redescobri umas músicas da Pitty, em 2024. Isso me rendeu alguns insights agridoces. Imaginei que Joana teria ouvido Me Adora, enquanto ainda estávamos nos primeiros movimentos de reencontro. E Na Sua Estante, quando as coisas realmente estavam descarrilhando de vez, algumas semanas antes de ela finalmente ir embora. Talvez ela nem tenha ouvido nenhuma, mas as letras super representam o lugar em que ela estava na relação durante aqueles momentos.
Aqui do meu lado, conforme a clareza sobre o que eu fiz aumentava, passei a me marretar com Linkin Park, Last Train, Architects, Dead By Sunrise, Royal Blood e companhia. Mas ouvir Landfill pensando em Joana (nossa, a Elena Tonra escreve magnificamente bem e acerta muito na veia as letras de Daughter) e me esguelar com I Never Loved Myself Like I Loved You sozinho no carro durante os engarrafamentos (Dead Poet Society é sempre um combustível primoroso para espirais emocionais descendentes) encapsula bem o ciclo de ruminação que enfrentei.
As coisas só amenizaram um pouco em 2023, quando Foo Fighters lançou Under You, que entrou para as minhas mais tocadas daquele ano.
Os desencontros
Eu já te disse aqui e ali nessa história que eu era crente na minha falta de apelo e interesse. Não só em relação à imagem ou à forma de falar, mas como um todo mesmo. Mas autoestima, ou falta dela, absolutamente não foi problema durante minha entrada na graduação. Por que eu estava com tudo em cima. Talvez pela primeira vez. Pra começar, eu estava me sentindo bem, pois estava com Joana.
E eu não acreditava nisso na época, mas eu estava longe de ser feio. E era professor de inglês (graças a Joana) enquanto cursava RI, e ainda tinha intenções públicas de ser diplomata (eu ainda não tinha desistido de prestar o concurso). Meu coeficiente acadêmico até o meio do curso foi 9,3. Eu sempre fui extremamente intelectualizado, e isso pesa bastante na convivência em um curso de ciências sociais, numa Universidade Federal. E eu tinha uma namorada, que não era qualquer uma. Era Joana. E isso, querendo ou não, elevava meu status.
E aconteceu o que eu nunca imaginei que seria possível: algumas colegas de sala estavam afim de mim. Inacreditável, eu sei. Sim, no plural. E algumas veteranas, também. Umas eu só achei que era, mas com outras eu tirei uma lasquinha sim, com sucesso. Elas estavam ali fazendo uma chuvinha de validação da qual que eu nunca tinha visto uma gota na vida. E sabe qual era minha capacidade de lidar com isso?
Ninguém resumiu melhor a contraparte dos bastidores disso tudo do que Mila, minha veterana do teatro, numa noite de bebedeira, falando com o Luan: Mano, olha o Theo bêbado… ele é inteligente pra cacete, mas no fim das contas, quando ele não tá fingindo nada… ele é só um toddler.
Luan ficou uns dez segundos com a boca aberta aspirando sem conseguir dar risada, um sorriso de orelha a orelha, olhos arregalados, balançando as mãos em frente ao peito, numa verdadeira epifania: Caraaaaaalho Mila caraaaalho, é mêrmo, véi! HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! (No dia eu fiquei puto, óbvio.)
Mas Touché, Mila. Toddler.
Era isso mesmo.
E nem digo isso para passar pano sobre nada que vem a seguir. Na verdade a sensação é de tristeza mesmo.
Uma maldição e uma ligação
Nunca mais a vi…
E o tanto que eu a quis ver eu não disse, mas ficou evidente em todos os dias dos anos seguintes. No automatismo dos movimentos de meus olhos e todo meu corpo, que pareciam mais uma maldição do que um hábito. Durante anos sendo perseguido pelos fragmentos de suas imagens, nos meus sonhos, nas ruas, na Universidade.
Toda mulher mais alta, branca ou ruiva, todo brilho sugestivamente castanho cobre, ginger ou até mesmo loiro escuro, todo par de olhos mais claros na multidão, qualquer característica minimamente reminiscente da imagem de Joana arrastava meu campo atencional, mesmo que por brevíssimos segundos. Com o tempo, apenas frações de segundos. Mas sempre esses reflexos estiveram lá.
Mesmo sabendo que não era Joana.
Ciente de que não seria.
De que não podia ser.
Era impossível.
Porque eu sabia que já fazia um ano que ela estava em São Paulo, a mais de dois mil e oitocentos quilômetros de distância de mim. Ela foi, lá para onde eu não fui, concluir seu curso de graduação na USP. E eu continuava em João Pessoa.

Eu só consegui ligar pra ela uns dois anos depois que a mandei embora, quando a angústia por alguma resolução foi maior que a vergonha de ter passado tanto tempo sem dar um retorno.
[foi por uma ligação de áudio no WhatsApp]
Alô?
Oi…
Joana?
Sim…?
Aqui é o Theo… Tá podendo falar agora?
Oi Theo… Sim, eu vi aqui o seu número, é o que eu tenho salvo… Tá tudo bem aí?
Tá… tá sim…
Sinceramente, o que dizer num momento desses?
Olha, eu soube esses dias da sua mãe. (ela tinha morrido há uns dois meses) Eu sinto muito, espero que você esteja bem.
Ah, sim… grata pelo cuidado. Tá meio doído mesmo, mas tá tudo bem aqui.
Tá… que bom então… … … Na verdade, Jô…
…
…
…
Eu só tive coragem de te ligar quando a Catarina me falou da sua mãe. Eu queria te ligar antes, mas não sabia o que dizer… e passou tanto tempo que eu fiquei sem jeito de falar contigo. E… eu sinto muito. Eu não te liguei para pedir perdão de nada, eu nem acho que você tem que perdoar alguma coisa… não é por isso que eu liguei. Eu liguei por que eu quero que você saiba que… eu sinto muito pelo que fiz e como tudo acabou… eu fui muito imaturo (foi o melhor que pude dizer). Você não merecia aquilo. Eu sinto muito.
“Eu não tinha maturidade emocional suficiente para levar o relacionamento para o próximo passo” era o atalho semântico e psicológico que eu tinha na época, quando eu ainda não conseguia reconhecer e dissecar o complexo de inferioridade, como eu fiz aqui contigo nessa história. E se levei anos para elucidar o complexo, mais trabalho ainda deu para reconhecer suas origens.
Mas é verdade, realmente, que eu não tinha tanta maturidade assim (é aquela questão de perspectiva que falei aqui no início da parte 3). Nem ela. Ao menos foi o que ela disse nessa ligação, que durou uns cinco minutos. Eu quis dizer que não consegui fechar bem nosso capítulo, que fui imaturo e queria saber como ela estava. Eu queria saber como ela estava. Eu queria saber como ela estava. Como é que ela estava?
Tá tudo bem, Theo, eu também era imatura em uns pontos e tive que resolver umas questões comigo mesma depois. Tá tranquilo. Passou.
Ela foi super educada, polida.
Mas foi só isso que eu soube.
E depois dessa ligação, nunca mais nos falamos.
Eu me senti de volta àquele momento em que eu fui acalentá-la no corredor dos blocos inacabados do CCTA. De quando terminamos uma última vez mas ainda tínhamos a dignidade de sermos e querermos ser amigos um do outro, porque nos queríamos bem. Quando até mesmo pensar na possibilidade de reaproximação era doído demais. Loguíssimo antes do episódio com Mafê e logo antes de ela querer uma última vez retomar em verdade a construção de nosso romance; antes de eu mandá-la embora de vez e cortar o contato por tempo indeterminado… e dar algum sinal de vida apenas dois anos depois.
Dois anos depois, haveria ainda o lugar da amizade? Haveria o espaço para começar uma conversa, qualquer que fosse? Quanto de tudo que tivemos eu consegui destruir? Eu não me vi merecedor de fazer essas perguntas, fosse diretamente pelas palavras ou indiretamente pela conduta de tentar me aproximar. Eu não tive coragem de confirmar a suspeita de que ela estava com um novo companheiro, porque não sabia se suportaria a confirmação dessa rejeição implícita. E se ela estivesse com alguém, eu também já não queria bagunçar a vida dela com conversas de assuntos pretéritos. Já bastava eu ter estragado tudo quando ela estava aqui.
Naquele momento eu me reconhecia fundamentalmente como uma força destruidora e perversa, capaz de grande estupidez e impiedade. E por isso preferi manter minha distância, como um gesto de misericórdia por nós. Uma conduta de redução de danos.
Foi aqui que a ausência de Joana me jogou de volta para as lembranças que eu tinha dela. Com novos questionamentos em mente, que eu tive que solucionar por conta própria dez anos depois. Foi aqui que eu comecei a revisitar infinitamente as seleções de memórias dela, que foram se tornando cada vez mais enviesadas, compondo o corpo do recorte idealizado das imagens que eu curei de Joana.
A ênfase crescente nas qualidades e virtudes de Joana foi o oposto complementar à imagem do lugar em que eu me reconheci. Pois foi exatamente aqui que começou a autoidentificação com os rótulos de “imaturo”, “idiota”, “cafageste”, “canalha”, dentre outros. Era uma narrativa que fazia sentido.
E essa é a história da instalação do alicerce da culpa, do triplex que Joana ocupou na minha cabeça. E eu ainda precisaria dez anos de aprendizado para ser capaz de demoli-lo, por que ainda não sabia do que era a feita a sapata que o sustentava. Tem algo fundamental sobre Joana que eu não te disse, porque não faria sentido agora. E eu te conto no epílogo sobre a constituição dessa sapata, porque para entender mesmo o peso de sua sustentação nós precisamos falar antes de Clarice.
As próximas partes dessa história são sobre…
Repertório.
Um repertório que foi indispensável para uma autoanálise e resolução final. “A demolição do triplex”, digamos. Conhecer minha trajetória e aprendizados com Alice, Berenice, Clarice e Demétria talvez pareça desconectado do que eu contei até o momento, sobre Joana. Não é.
Sem a presença delas em minha vida, eu nunca teria descoberto a chave da quintessência de minha relação interna com Joana. Suas histórias estão, todas, intimamente conectadas. E eu te conto exatamente como e por quê no epílogo dessa jornada. Mas não quero te entregar o prato pronto, eu te quero aqui comigo nos bastidores da preparação, sentindo o fogo e provando os temperos.
A próxima parte é sobre o início da minha queda em mim e da retificação de alguns comportamentos e padrões mentais. A fase inicial da lavagem da alma, digamos assim. O colocar da peça de molho na água com sabão, antes de esfregá-la e batê-la na pedra.
Eu quero te contar sobre Alice.
Continua…
(parte 4 em 25/07/2026)
Eu até disse algo do tipo “vai ficar emocionalmente complexo”, não foi?
Mas e aí? Como foi sua experiência até agora? Fale do seu coração.
© 2026 Theo Sant’Ana. Este texto é protegido por leis de direitos autorais. A reprodução total ou parcial não é permitida sem autorização expressa do autor.



Joana, quero ser como ela quando eu crescer.
Théo, tu me lembra Brás Cubas e ao longo deparei em umas situações de “Ideias Fixas” que lembrariam a mim mesma.
Se eu teria raiva de ti após ler essa história?
Jamais!
Se eu julgo?
Não vou mentir, julgo.
Julgo até a mim mesma no teu lugar. Como não? A narrativa psicológica me prendeu aqui e me fez refletir em minhas próprias escolhas.