Prepare-se para perder
(Isso com certeza vai te deixar mais sexy)
Você já sabe da importância de estar limpinho e usar um perfume legal. Congrats. Mas de nada adianta perfumar o corpo e chegar fedendo a apego ansioso para uma conversa. Dá para sentir de longe.
E olhe que não sou um guru cuspindo receita ou conselho. Na verdade, te contar insights pessoais aqui é uma exposição desconfortável. É a superação dos meus erros que eu estou expondo, grande parte das vezes. E mostrar que a essa altura do campeonato eu não tinha entendido questões tão básicas da convivência humana me dá uma sensaçãozinha de vergonha.
A maioria dos insights que eu tenho agora aos trinta e poucos anos, eu acho que deveriam ter vindo aos 15. E o pior é que eu já tinha sido avisado e instruído de muitas dessas coisas que me chegam hoje como um Eureka… Mas escutar uma boa dica é diferente de entender, internalizar ou aplicar na prática.
Mas eu acredito que é mais proveitoso compartilhar os progressos que ficar remoendo as penas.
A maioria das coisas que eu falo aqui são aplicadas a romance. Por que, acredite ou não, meu coração é quente.
Mas se você fizer um esforço, dá para aplicar isso aqui a qualquer tipo de relação ou contexto que te coloque numa condição de dependência com a sua própria ansiedade (na verdade a dependência é em relação aos objetos dos pensamentos ansiosos, mas a gente já chega lá).
Ansiedade é projeção de futuro ou fantasia?
Você já ouviu falar que depressão é apego ao passado e ansiedade é apego ao futuro?
Isso é lorota.
Tudo bem que é uma ideia até didática, mas é lorota.
A mente se apega a narrativas, e as emoções que essas narrativas geram.
Narrativas de interpretações que damos a coisas que aconteceram, que geralmente se chama de “passado”. Narrativas de projeções do que pensamos que pode ou não acontecer, que é comum chamarem de “futuro”. Dentre outras narrativas.
E o que é futuro? Para mim, futuro é o que vai acontecer.
Veja só, não é o que eu acho que vai acontecer, o que é provável ou até muito provável, ou quase certeza do que vai acontecer… É o que vai acontecer mesmo. O ser humano, via de regra, desconhece o futuro. Pode até ter uma boa ideia do que acontecerá, pode até acertar nas previsões. Mas são só ideias. Previsão é só isso mesmo, o vislumbre prévio de uma imagem.
Então o que é ansiedade?
É apego ao futuro mesmo?
Se fosse apego ao futuro mesmo, é por que você saberia mesmo o que vai acontecer. Aí ansiedade seria negar o presente, por que você está esperando aquele momento específico chegar. Mas como não sabemos do futuro, futuro mesmo, a ansiedade não é apego ao futuro. É apego às narrativas que a mente projeta.
Será que vai dar certo? E se for assim? E se for do outro jeito? E se der certo desses três jeitos diferentes? E se não der? Como que vai ser? Ai, e agora?
São vários sabores de ilusões, competindo pela minha degustação mental.
Mas…
E se eu não tiver ilusões que me ocupem a cabeça?
E se eu não tiver expectativas para serem derrubadas?
Isso aumenta ou diminui as inseguranças que se empilham no coração?
Isso aumenta ou diminui o peso de ficar reprocessando minhas interpretações, projeções e expectativas?
Você dá conta de perder?
Ah, Theo, muito fácil dizer que eu não crie expectativas. Muito fácil cuspir teoria, mas como é que faz na prática?
Boa notícia para você: eu mesmo só comecei a mudar um pouco esse padrão agora por que quebrei a cara algumas vezes. Inclusive (vergonha, eu sei), eu só consegui por que “algumas” na verdade é “várias”.
Vou te dizer como eu faço, em primeira pessoa. Veja se faz sentido:
Toda vez que começo a criar expectativas, é como se eu estivesse acelerando meu carro em direção a uma parede concreta, inquebrável, chamada verdade. Digo isso por conta de como me senti com algumas expectativas que criei e não foram atendidas.
Você também?
Então toda vez que eu percebo que estou criando novas narrativas, eu me chamo atenção para essa imagem: atenção, você está acelerando em direção àquela parede. Vale a pena ficar colocando o pé no acelerador, criando mais e mais narrativas? Vai dar tempo de colocar o pé no freio em tempo de voltar para a realidade e seguir com a vida?
A parede está logo ali.
Você realmente quer tocar no modo hard uma música que você nem conhece no modo easy?
Se você já deu com a cara na parede algumas vezes, esse tipo de questionamento pode ajudar a sair daquele transe hipnótico de aceleração. Inclusive, quanto mais vezes você bateu na parede, mais chances de você conseguir se acordar, por que conhece a dor.
A não ser que seja masoquista, aí precisa de ajuda profissional.
Se quiser ajuda, claro.
E o que isso tem a ver com apego ansioso?
As coisas podem dar certo, dar errado, ou qualquer coisa no meio do caminho. Ela pode dizer sim, pode dizer não, ou alguma coisa mais complexa, profunda ou superficial que isso.
E sabe o que eu percebi?
Geralmente as narrativas ansiosas que eu crio são variações do “sim”.
O tempo que eu passei pisando no acelerador em direção à parede, na verdade era eu redobrando a aposta emocional nas narrativas do “sim”, e como eu me sentia com essas narrativas.
Por que fazemos isso?
Uma resposta curta é que isso é um mecanismo fácil para gerar dopamina barata: ficar imaginando paixonite é um comportamento altamente viciante, de fácil acesso e muito gostoso de fazer.
Num nível mais profundo, são outros quinhentos que cabem mais aos analistas ou psicólogos dizerem. Mas acredito que vale a pena você dar uma olhada nos 6 Padrões mentais que arruinam qualquer relacionamento e refletir sobre o assunto.
Mas entende o perigo da situação?
Não sabemos se o futuro será “sim” ou “não”.
E, a despeito disso, para quem se torna dependente emocional das narrativas do “sim”, a realidade se torna uma ameaça em potencial para o seu bem-estar. E é assim que se entra num buraco de dissociação da realidade, criando narrativas ilusórias para sentir as emoções que elas geram. Se a realidade se torna uma ameaça ao bem-estar, o mundo real se torna uma fonte de medo, constante e onipresente.
E esse medo… fede.
Chegar fedendo a desespero para qualquer interação humana não favorece ninguém.
Você dá conta de perder a carga que gera tudo isso?
Até porque… você nem ganhou ainda.
E se eu te disser que é super transformador, não depender de ter aquilo que ainda não se conquistou?


