Só fazendo nada mesmo
(e eu não acredito que isso seja um luxo)
Às vezes eu tenho que inventar algum motivo para sair de casa. Geralmente é uma encomenda que chegou na caixa postal com o nome vicário do meu primo, porque minha caixa postal é a casa dele. E antes de sair aqui da zona rural, eu vejo a lista de cafés na cidade que me mandaram paquerar, porque… quem sabe um dia, né?
E é assim que agora estou olhando para as logos de trigos fofinhos da padaria artesanal, na toalha de papel para bandeja da mesa. Ouvindo a playlist indie, escrevendo calmamente no caderninho de bolso, como se Somewhere Only We Know ao fundo nem fosse uma música que me põe para uivar no volante ou lavando a louça.
Já passou das 15h, mas eu vou tomar café. Só tomo sem açúcar, puro e fervendo, mas hoje é café gelado com caramelo da casa, um toque de limão siciliano e muito gelo. (E agora I Wanna Be Yours, que lista é essa ein?)
Também não costumo comer doces, mas hoje o café é com um cookie. Pensei em uma coisinha marrom com gotas de chocolate, mas a moça perguntou se eu queria cítrico ou qualquer outra coisa que eu não entendi:
— Cítrico. — Por que eu não quero pedir “pode repetir, por favor?”.
— Quer que esquente?
— Sim, por favor. — Que diabos é isso? Se biscoito é crítrico, sem gotas de chocolate e com cobertura glacê… por que não esquentar essa bagaça também?
Café com leite doce, com doce, depois das 15h.
A higiene do sono que lute.
Mas pedi mesmo assim.
Só por que é uma raridade, uma saída dessas.
O contorno das mesas é nítido, mas metade das coisas que vejo é ofuscada pelo brilho dourado entrando pela porta de vidro da frente.
Fazendo nada.
Exceto pelo fato de que estou me furtando o “nada” pela escrita.
Mas é um luxo, não é? Fazer nada.
Chegou.
O cookie é tão horrorosamente doce que me faz conseguir sentir o nítido amargo do café entre o leite adocicado e o caldo de caramelo.
Uma delícia.
Mas não é luxo não.
Eu vim aqui na esperança de fazer uma crônica como voyeur de alguém que aparecesse, mas ao sentar na mesa só havia o sol aos olhos e as baristas tagarelando atrás do balcão, às minhas costas.
Bem agradável — por sinal —, o ambiente.
E eu acho que meu viés crítico social é feito o brilho poente aqui à minha frente, ou um filtro padrão de interpretação das imagens. Como é que chegamos num estado das coisas em que simplesmente parar para fazer nada é um luxo?
É considerado luxo porque se tornou raro.
Mas é exatamente disso que estou falando.
Ufa, acabei o cookie.
(E agora Lunch, da Billie Eilish? Kudos!)
Sério, imagine aí, você que pode fazer pausas assim, como seria não poder fazê-lo? (Você que não pode já sabe que é horrível, mas provavelmente nem tem tempo para ler isso aqui direito.)
Não, não me venha com essa de merecimento.
Usar papo de merecimento é aceitar as regras do jogo (e existe uma diferença entre jogar em acordo com as regras do jogo e aceitá-las), e isso é aceitar que tornou-se normal dizer que a maioria merece não ter condições de merecer… repouso.
Meu deus, esse café é enorme, tá me desafiando.
Mesmo um golinho de cada vez, entre as canetadas.
Sério, eu não entendo. Como é que a pessoa que diz que “o que era [condição básica para a saúde mental] agora virou… luxo” fica escandalizada quando alguém diz que o sistema de sociedades em que estamos é uma merda um inferno pavoroso?
Fazem piti quando alguém diz de maneira direta que a existência humana na Terra é pavorosa, só por que o que elas vêm a um raio de cinco quarteirões do CEP delas não corresponde ao pavor que é dito.
— Ah, deixa de ser reclamão! Tá tudo bem contigo, você deveria agradecer! — é mais ou menos assim que elas respondem.
Oshe.
Tá se fazendo de doido ou não entendeu?
Num tem nada a ver não, criatura, uma coisa com a outra. Eu sou grato pelo lugar em que eu estou, sim. Mas são dois assuntos. E não sei se você percebeu como sua resposta mudou o rumo da conversa, veja só…
O fato da sua descarga funcionar é suficiente para te tranquilizar com o fato de que multidões estão se afogando na latrina?
Porque é disso que estou falando. Quando digo que a existência humana na Terra é pavorosa isso não é uma reclamação sobre minha condição ou de cunho pessoal, mas uma observação umque vai além dos bairros que têm um café sossegado como esse aqui. Não estou reclamando por que a descarga funciona, entende?
Ufa, acabei o café.
Gostei, talvez venha por aqui mais vezes.
Essa foi uma crônica de A Longa Jornada de Mim.
© 2026 Theo Sant’Ana. Este texto é protegido por leis de direitos autorais. A reprodução total ou parcial não é permitida sem autorização expressa do autor.
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P.s.: Por aqui eu falo de muita coisa que não é… café gelado com caramelo — porque essa sim é a tônica dessa crônica, serto? Se você gosta de reflexões intimistas, histórias e contos, crônicas, opiniões existenciais, e ensaios, críticas e resenhas, de temas variados, com essa mesmíssima pegada de redação e uns lirismos a mais nos poemas, o ritmo é esse:
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