Sua vida de hoje não é uma sala de espera para a sua vida de verdade.
(Foi assim que eu ouvi de fato que "a vida só se vive vivendo".)
Essa foi uma frase que explodiu minha cabeça ali no final de 2025, que veio de um dos lugares mais inusitados e aparentemente insossos que eu poderia pensar.
Em novembro de 2025, fui para uma aventura incomum: um amigo meu rompeu parcialmente uns tendões e foi fazer cirurgias e tratamento de fisioterapia lá em São Paulo, em São Paulo. Ele é de João Pessoa e eu também, mas ele passou mais de um mês lá na capital paulista. E eu revezei com uma amiga nossa para acompanhá-lo no dia a dia, durante a recuperação. Foi ótimo.
Ele é extremamente culto, letrado e atraído pela cena cultural paulistana, e bancou nossas saídas por lá. Eu, obviamente, dei conta de avançar meus afazeres profissionais home office com eficiência máxima, para cumprir meu dever de acompanhante em todos os momentos.
Hotel pago, refeições também. Restaurantes legais e diferentes, todos os dias. Com boas conversas o tempo todo. Tendo que condensar meu trabalho para dar conta dos deveres profissionais, tecer boas conversas sobre todo tipo de assunto com ele e ainda correr ali para as ilhas com barras para prática de calistenia no parque do Ibirapuera. Dormindo tarde e acordando cedo, para dar conta dos horários doidos dele e minha rotina também. Olhe, sinceramente, foi puxado, viu? Mas faria de novo hahahahahaha. Numa necessidade, claro. Festa é bom, mas preciso de rotina.
Fomos para a Bienal, para uma exposição interativa psicodélica sobre Carl Jung, vimos o filme do Bruce Springsteen e mais um filme medíocre que não lembro o nome no cinema… mas o que me pegou numa pancada que ecoa até hoje na minha cabeça foi numa peça de teatro. Vimos 7 peças durante aqueles 18 dias. Todas boas. De verdade, gostamos de todas. Mas foi a mais “comum” delas que me deu uma pancada reflexiva para eu reavaliar minha existência (“comum” em comparação com nossa impressão das outras, tá? Todas foram realmente boas).
O nome dela é Afterplay, de Brian Friel, que imagina o encontro de dois personagens de Tchekhov após 20 anos. E não vou bancar o cult aqui contigo. Eu sei apreciar a arte, mas não sou sabido. E não faço questão de estudar só pra parecer bonzão.
Não faço ideia de quem é Brian Friel. E só sei que Tchekhov é um cara legal por conta do princípio do rifle no palco (pesquise “princípio da arma de Tchekhov”, se precisar), porque em algum momento da minha vida maratonei canais de film making no YouTube, a troco de nada.
Eu não sabia quem é a Norma Bengell, mas fomos ver o musical de sua biografia no teatro do Sesi. Não sabia nem sei quem é Bosco Brasil na cena do teatro brasileiro, mas fui ver Novas Diretrizes em Tempo de Paz e saí de lá arrepiado e com as tripas mexidas.
Não sei dizer nomes de autores ou expoentes de teatro experimental contemporâneo, mas fomos ver uma dessas doideiras trancados por uma hora num escritório com mais uns dez expectadores e dois atores num diálogo eletrizante da peça chamada Realpolitik (não sei te resumir em poucas palavras, mas foi bom capacete me deixou muito reflexivo).
Eu não sabia nem sei ainda exatamente quem são Adriana e João Falcão na fila do pão do teatro nordestino, mas fui ver A Máquina e super gostei demais. Nunca li nada do Nelson Rodrigues, só digo que “sim, claro, já ouvi falar bem, o cara é genial”, mas fomos ver A mulher sem pecado. Me acabei de rir e saí com umas reflexões de lá.

E pra fechar a maratona, no penúltimo dia em São Paulo, ele me levou para ver Wicked. E não tem jeito. Se eu choro vendo até a cena de revelação do tema heróico completo do James Horner em The Amazing Spider-Man, é óbvio que eu não conseguiria conter uma lágrima ou duas vendo as gurias cantando alguma coisa sobre bruxas e amores, mesmo naquele modelo de melodrama à la Broadway.
(Sem fotos ilustrativas de Wicked, por que sou dos alternativos. Mas a peça foi mesmo um espetáculo.)
E por incrível que pareça, eu veria todas essas peças mais uma vez… exceto Afterplay. (Até por que uma vez bastou para a vida.) Fiquei muito mais impressionado com a visceralidade das atuações e o palco giratório de Tempos de Paz, do que com o galpão alternativo e tom intimista de Afterplay. Me chocou muito mais o fato de o baterista do instrumental da Norma Bengell manter o groove do bumbo e chimbal na bateria da banda enquando tocava alguma coisa no trompete (que amostração desnecessária, só pra humilhar mesmo, como pode?), do que os pontos mais altos de Afterplay. As vociferações filosóficas, terroristas e pontuais em Realpolitik me hipnotizaram muito mais que toda a duração de Afterplay. A fisicalidade acrobática, vivacidade circense e potência vocal num palco que funcionava como um skate giratório coletivo em A Máquina também foram mais interessantes que qualquer reviravolta de Afterplay. E eu reveria tranquilamente A mulher sem pecado. Sim, também porque Nelson Rodrigues é fantástico. Mas sobretudo por que a revelação da dieta e rotina física da Eugênia Granha por debaixo dos vestidos folgados foi muito mais chocante do que a reveleção de reviravolta do enredo! Que desconsideração ao pleno empenho da atriz, minha gente. Aquele nu frontal devia ter durado mais!
Ainda assim, foi Afterplay que explodiu minha cabeça.
E inclusive redefiniu meu comportamento.
Uma peça feita num galpão experimental, com a plateia espalhada ao redor de 2 metros quadrados de cenário circunstricos no chão, com uma mesa de cafeteria ao centro e duas cadeiras opostas onde os dois personagens desenrolavam uma conversa. Pensando a posteriori, o roteiro é muito bom por conseguir simular uma conversa de fato. Mas na hora a impressão foi outra, porque realmente parecia “só uma conversa”.
E aqui está o que realmente mexeu comigo:
Em determinado momento, um dos personagens se queixa de suas irmãs, que vivem lá no interior. Por que elas sonham em morar na capital. Mas nunca poderão, e no fundo sabem disso. Inclusive, já perderam a única chance de ir para a capital há muito tempo. Mas essa não é a tragédia. A tragédia é que elas têm uma boa vida no interior. E essa boa vida tem muitas possibilidades de melhoras, ao alcance delas, mas elas não desenvolvem nada… porque o que elas realmente querem é aquela vida na capital, que elas nunca terão. E isso angustia profundamente esse protagonista:
Meu Deus, eu não consigo aceitar! Elas simplesmente se negam a viver o que elas têm e poderiam ter de bom! Elas vivem como se a vida delas fosse uma sala de espera para a vida de verdade começar, mas todo mundo, inclusive elas, sabe que isso não vai acontecer!
E ainda assim elas insistem!
E aquilo explodiu minha cabeça.
Nossa, mexeu demais comigo.
Inclusive eu conversei com esse meu amigo sobre isso, e ele não tinha se dado conta… Mas após trocarmos uma ideia, concordamos que o conceito que essa frase entrega é sim o mote central da peça, que faz com que seu final seja muito mais trágico do que é encenado na superfície.
É uma frase meio complicadinha, eu sei… “A sua vida não é uma sala de espera para a sua vida de verdade começar”. É mais simples, por exemplo, dizer “A vida só se vive vivendo”, ou feito a Gabrielle R.S.: “Vai viver”.
Mas, naquele momento, eu precisei daquele formato. Desenhado por aquela peça, ali ao lado dos atores, e eles soltarem essa bomba no meio da peça e eu sem ter pra onde correr e ficar ali processando a ideia… e eles ainda voltaram pra deixar isso como o mote da peça inteira, com um finalle brutal…
E isso é uma das razões de existência do teatro, da escrita, da arte, não é? Dar repertórios de contextos ao público, que provavelmente não teria acesso àquelas reflexões ou despertar de vivências emocionais, se não pela apreciação daquela arte.
Foi nesse formato que a mensagem realmente chegou.
E eu comecei a agir diferente.
Dentre várias outras questões, já fazia uns dois anos que eu não me interessava romanticamente por pessoa nenhuma. E se notasse algum germinar de romance… eu arrancava logo e mascava o broto, pra garantir que não aprofundasse raízes no meu peito. Os brotinhos são amargos e eu sei que o perfume das flores pode ser doce, mas preferia o amargor da amargura do que correr o risco de ver mais uma plantinha morrendo no meu peito.
Mas aí teve essa mensagem do Afterplay. Damn!
Quantos cafés eu não marquei com amigos só por conta desse conceito? E com uma crush também. Sim, a Poliana (não sejam bobos, vocês sabem bem que o nome dela jamais foi esse). Ela até estranhou quando eu falei com ela. Mas eu disse que sentia falta de conversar com pessoas inteligentes, mulheres inteligentes feito ela e a Nathalya. Disse pra ela dessa frase do Afterplay, que mexeu muito comigo. Mas muito mesmo. E ela respondeu claro, podemos conversar (:
E eu me permiti apaixonar por Poliana. Saber das leituras dela. Das playlists no Spotify, dominadas por Lana del Rey, Sade e Thievery Corporation. Mandei músicas e bandas pra ela (fora do circuito Linkin Park, Incubus e Foo Fighters), que ela gostava, e ela sempre mandava algo de volta pra mim na mesma vibe.
Em um dos dois cafés ela falou sobre o que ela espera de um homem, do cavalheirismo, do cortejo. O que ela não quer mais de um relacionamento. Mas que ela quer sim um relacionamento. (Sim, praticamente um manual com declaração de intenção.) E nos aproximamos…
E foi horrível! Meu Deus, que desastre foi, Poliana na minha vida. Arre égua! Misericórdia. Era só o que faltava, eu há poucos dias da morte do José Renato, receber uma resposta com um aviso súbito, na quarta-feira de cinzas, dizendo que nunca mais falasse com ela, sem menos nem mais, e que se tivesse perguntas era melhor fazê-las à psicóloga.
Nossa, que desastre foi.
Pelo menos rendeu chororô.
Um poema em inglês com versão em português e uma cartinha com storytelling visceral no Substack, Poliana já me rendeu. E ainda tem pelo menos uma outra carta, relacionada ao processamento desse luto, que publicarei mais à frente.
Mas sabe que… foi bom?
Não o desastre em si, que eu não sou masoquista.
Mas o movimento.
Eu saí da estase.
E foi ótimo.
Continua sendo ótimo.
Até a escrever, eu comecei.
Quebrando uma estase de nem sei quantos anos.
Eu já escrevia e escrevo, bastante, naquele meu Moleskine que tenho à guisa de eventuário (convenhamos, diário ele nunca foi). Mas comecei a escrever pra fora. Voltei a fazer poemas. Artigos. Ensaios. Opiniões existenciais. Publiquei meu primeiro livro de poesia. Até uma novelinha, tipo minissérie do Netflix, eu estou fazendo. Chamei esse conjunto todo de A Longa Jornada de Mim, que é um negócio que eu quero muito que me leve a promover um verdadeiro spin off da minha vida.
Coisas que nunca eu pensei que faria…
Mas estou fazendo.
Estou voltando a viver.
E desta vez com sentido.
Sentido criado mesmo.
Porque minha vida não pode mais ser uma sala de espera para que a vida de verdade finalmente comece a acontecer.
E se for necessário escrever minha Jornada, para que ela pavimente meu caminho mental para fora da sala de espera em que eu me coloquei… eu escrevo.
Mas e você? Está tratando sua vida atual como uma sala de espera para sua vida de verdade começar? Ou já está se empenhando para criar e cumprir uma narrativa que faça sentido? Tratando a vida como uma jornada?
Essa foi uma reflexão intimista de A Longa Jornada de Mim.
© 2026 Theo Sant’Ana. Este texto é protegido por leis de direitos autorais. A reprodução total ou parcial não é permitida sem autorização expressa do autor.
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