Um encontro que eu tive com o capeta
(Relato de um bate-papo que rolou com o meu ex-empregador)
De repente me vi de pé, próximo ao centro de uma catedral gótica, aos pés de um altar central. Os vitrais, opacos e sem desenhos, emitiam uma luminosidade cinza-claro, pálida e pouca. Acima de trinta e três metros de colunas, não se via os ápices dos arcos ogivais acima delas. Qualquer possibilidade de visão da abóboda se perdia na treva acima. À minha frente, acima de sete degraus de pedra que sustentavam o sólio de seu trono, com um espaldar de sete metros de altura e três de largura onde ele se recostava, estava Satanás.
Sinceramente, eu quase nunca lembro do que eu sonho e nunca lembro enquanto acordado de tê-lo visto. Mas toda vez que esse abençoado me leva pra um encontro numa das moradas dele eu me lembro instantaneamente que já estive com ele… algumas vezes. Ai, que nervoso que dá. O pavor de estar diante dele era tão grande que não cabia em mim, e por isso parecia não existir. Na verdade eu tava era meio emputecido.
Fala, telecoteco, meu querido! Como é que tu tá, nego véio?
Mas rapaz… de novo?
(perguntei)
Sentiu minha falta não, foi?
(com um sorriso lindo, mas tão lindo… que chegava a ser irônico)
Aff, que vontade de responder com um palavrão e mostrar o dedo. Mas ele é sempre muito polido e eu tenho que provar que consigo ser melhor que ele. E também, eu estava na casa dele, né.
Rapaiz…
(eu balançava os braços meio nervoso, olhando para todos os lados para tentar sondar o ambiente… e parei apontando o dedo pra ele, lá em cima)
… eu num me lembro de ter combinado um date contigo não! Sabe, macho?
(ele riu, com gosto. os degraus que sustentavam seu trono começaram a se recolher um dentro do outro, de cima para baixo, enquanto ele continuava a conversa)
É o padrão de quando tu vais dormir, Teco. Toda vez que você vai dormir com raiva de alguém, ressentido com uma questão, com aqueles desgostos e angústias mais profundas com a vida que você ainda alimenta… é como se você levantasse a mão na parada de ônibus para eu te pegar.
(e não é que fazia sentido, essa conversa mole dele?)
Tá loco tio, a pessoa num pode nem ficar angustiada em paz, que você já chega raspando o tacho?
(ele riu mais uma vez)
O sólio do trono chegou no mesmo nível do chão em que eu pisava. E, enquanto ele descia e falava, assumiu a forma do meu pai. Aff, que ódio. Parecia que ele queria colocar à prova meus anos de progresso pessoal e terapia. É sério isso? Depois dos desafios hercúleos que eu tive para não pintar mais meu pai de capeta, tava lá o capeta se pintando de meu pai?
Senta um pouquinho, pra gente conversar tranquilo…. Você sabe que eu não mordo.
(e apontou para uma cadeira de pedra atrás de mim, que não estava lá quando eu olhei há pouco. ai que nervoso que dá, esses trambolho mágico que ele apronta. sentei-me)
A luz foi dissolvendo o ambiente, transformando tudo num jardim ensolarado. O aroma das flores bem cuidadas vinha pela brisa suave onde algumas borboletas voavam. Não parecia, mas eu sabia que era tudo sintético. E ele assumiu a aparência de Joana, mas meu olhar foi tão gélido que ele reverteu sua a aparência para a de meu pai, sentado num tamborete à minha frente.
Que bicho arguto. Simulou um erro de transfiguração para me fazer pensar que meu olhar de reprovação tinha algum poder sobre ele? Para se apresentar como minha figura paterna, sentada num banquinho nivelado abaixo de mim? Queria me seduzir pelo orgulho.
Qué que tu quer, Sá?
(me reclinei na cadeira, que agora era artesanal de madeira, muito confortável)
Me oferecer um aumento?
Não, não… Você já não disse que mudou de empregador? Só quero ver como que você está.
(sorriso amoroso)
Quer um cigarro?
(perguntou apontando para minha direita)
Quando olhei para o lado, estava à minha direita Genève (Genève é uma lésbica por quem me atraí por algumas semanas, até meu Anjo da Guarda soprar no meu ouvido que ela não estaria para jogo comigo. É muito sofrido, ter o gaydar descalibrado), com um lindo vestido curto e branco com detalhes florais, seu belo sorriso no rosto, um belíssimo decote à altura da minha cara, uma carteira aberta de Lucky Strike vermelho numa mão e um Zippo na outra.
Será que ia dar certo?
Tem um tipo de sonho que é comum eu lembrar depois que acordo: eu acordo assustado por que quase fumei no sonho, mesmo depois de mais de 13 anos que deixei de fumar. Passo o sonho inteiro tentando pegar um cigarro, ou um isqueiro, ou filar uma tragada de alguém, doido pra fumar. Parece até sketch de comédia, o que eu passo para tentar dar uma tragada de cigarro naqueles sonhos. Aí, quando vou conseguir… acordo.
Será que se eu fumasse agora eu acordaria?
Olhei para a cara de Genève com um sorriso apaixonado e abri a boca com um aahh e ela colocou uma unidade na minha boca, acendendo com o isqueiro. Traguei profundamente e meu corpo não reagiu com tosses violentas, provando que eu estava mesmo dormindo. Tirei o cigarro da boca, segurando-o entre os dedos indicador e médio esquerdos.
Olhei para Satanás enquanto segurava a fumaça nos pulmões, e para Genève enquanto soltava pelo nariz, ambos sorridentes e simpáticos, e de volta para Satanás com um sorriso forçado tentando disfarçar o fracasso (merda, não acordei. e agora?). E me voltei para Genève:
Mmmm… Não, querida.
(olhando para seus olhos, dei-lhe uma bela apalpada no seio direito com minha mão esquerda, enquanto encaixava o filtro do cigarro no entresseio, que estava bem apertadinho)
Acho que…
(e ela me olhava com uma cara bondosa de interesse autêntico, enquanto eu mantinha minha mão esquerda onde estava e palpava a frente direita do seu quadril com mão a direita, para ver se era de verdade mesmo. olhe que parecia de verdade mesmo, viu? e digo mais: estava sem calcinha)
Não sei… (aperta aperta, alisa alisa…) acho que eu não gosto mais…
(fitei demoradamente a região onde o cigarro estava de pé, queimando lentamente, enquanto eu dava uma última apertada e alisava a parte interna das coxas. depiladas, por sinal)
… de cigarro, sabe?
(olhei de volta para seus olhos, tirando a mão de dentro do vestido)
Acho que não gosto mais de cigarros.
Imagina, não tem problema!
(ela disse com doçura e um sorriso angelicais, passando levemente a mão em meu rosto)
Vou deixar vocês mais à vontade, então, tá bom?
(desassanhou a barra do vestido e pegou o cigarro na maior cara blazé, fingindo que eu não tinha feito os peitos dela de cinzeiro)
Tá bom, meu anjo, eu agradeço.
(e dei-lhe um tapinha na popa direita à guisa de tchau, quando ela se virou para ir embora. nunca, jamais eu faria um negócio desses na vida real! mas tá no inferno né… abraça o capeta.)
Sim, Sá… e você dizia…?
Dizia que quero saber como você está.
Mmmmm, sim! Eu sei, Sá, eu sei…
Ativo bom a gente quer ver se tá bem, mesmo depois que sai do balanço da empresa, né?
Sair do balanço?
Mas meu filho, você ainda está com a etiqueta do inventário. Só não está ativo nem remunerado, no momento. (disse apontando para minha barriga)
Olhei para baixo, levantei a camiseta… e a tatuagem ainda estava lá. Bem nítida, numa tinta preta mais negra que breu: um dragão, dando a volta completa em minha cintura. Aff, como me incomoda, ver essa tatuagem nas vezes que falo com ele.
Ô Sa-sá, cê sabe que tá desatualizado isso aqui, né?
No corpo em que eu estou nascido, que está dormindo agora, num tem esse trem aqui não.
(de fato, eu nunca fiz essa tatuagem de dragão na minha vida)
E você acha que não ter neste seu corpo agora apaga o compromisso da alma?
Vixe, Sá. (me arrepiei todinho)
Sou mais os passarinhos que eu tatuei nessa viagem, viu?
(realmente, nesta vida eu tatuei dois pavões que me cobrem completamente as costas e estendem as pontas das penas de suas caudas pelos lados de meu tronco até a frente do abdome, simétricos. um colorido à direita e um branco, em tons de cinza, à esquerda.)
Ouvi dizer que pavão gosta de comer répteis, especialmente os peçonhentos. Sei lá, né… vai que eu já tatuei alguma lagartixa pelo corpo em alguma outra vez…
Pensei que era por que simboliza Yemanjá e Oxalá, meu filho…
Nah, isso aí é pra galera que estuda Aumbandhã.
Eu num sei de nada disso não…
Eu sou um cara simples, você sabe.
(dei um sorriso de prazer, porque um dos prazeres que eu tenho nessa vida é me fingir de besta)
Ele me olhou com sorriso de crueldade, com um brilho perverso nos olhos, como se estivesse prestes a iniciar uma sessão de tortura por decênios comigo, em seus calabouços. Como se eu tivesse alguma dívida para pagar pela insolência do que disse. Como se as dívidas que eu acumulei sendo seu capataz de assuntos estratégicos após galgar as hierarquias de seus torturadores de elite durante séculos já não fosse pagamento suficiente.
Você sabe que ainda me deve serviço.
Ah, Sa-sá… vai pro inferno, vai!
Nós dois rimos histericamente. Por que eu sei que talvez eu deva mesmo alguma coisa, mas ele pode apenas estar mentindo para me convencer a reiniciar o ciclo. Então é melhor negar serviço, porque se eu dever mesmo algo a ele, prefiro resgatar as dívidas com ele usando a Luz como minha procuradora. Por isso nós dois sabemos que, mesmo que eu deva algo para ele, ele não tem poder sobre mim. Se estiver no contrato, eu como sim o pão que o diabo amassou, mas só recebo por correio. Eu pago aqui de onde estou, pelo intermédio de meu novo empregador.
Olhe, meu filho, nunca saia de um lugar sem deixar as portas abertas. Especialmente um lugar em que você trabalhou tão bem e onde você é tão querido e bem-vindo.
Quê isso, Sá.
Nem a pessoa do meu pai na terra me chama de filho, a gente se chama pelo nome mesmo. Tá melodramático demais, assim você força a barra.
Ah, vá se foder, seu fresco!
Eu num posso nem tentar ser carinhoso, seu bosta?
(Eu sorri e dei uma risadinha, porque agora sim parecia com meu pai demonstrando o seu carinho. De verdade, sem ironia mesmo. Os brutos também amam.)
É só isso mesmo, Sá?
(e ele deu um risinho resignado)
Sim, por hoje é só isso mesmo.
O despertador tocou.
Coloquei na soneca de cinco minutos.
Às vezes eu me pergunto se dormi e repousei de verdade, por que nunca lembro dos sonhos que tive. Isso assumindo que é verdade o que a neurociência diz, que todo mundo sonha, sempre, mas nem sempre lembra. Sinceramente, eu duvido. Eu acho que eu nunca sonho mesmo.
Tirando aquelas vezes que eu acordo assustado por que estava prestes a fumar no sonho. Ai, que nervoso que dá.
Essa foi uma crônica de A Longa Jornada de Mim.
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