Wallerstein 2.0: Pensando e Aplicando Teoria dos Sistemas-Mundo no século XXI (resenha)
Resenha em português, de 2023, de uma atualização bibliográfica em neomarxismo.
Resenha de “Wallerstein 2.0: Thinking and Applying World-Systems Theory in the 21st Century”
(Título de livro de Frank Jacob (editor), 2023)
Immanuel Wallerstein (1930–2019) foi um expoente intelectual da sociologia, reconhecido como um mestre fundador e desenvolvedor do campo de conhecimento das Análises dos Sistemas‑Mundo (ASM). No primeiro capítulo de seu livro, Frank Jacob demonstra como a evolução da obra de Wallerstein reflete sua biografia intelectual: de tom multidisciplinar, integrativo, crítico e normativo, as ASM buscam respostas teóricas para problemas históricos e traduzir seus aprendizados em ações antissistêmicas que revertam as injustiças do atual sistema histórico social (ou sistema‑mundo) global, a economia‑mundo capitalista. Embora as ASM se proponham a ser um movimento do saber, seus quadros analíticos explicativos são comumente referidos como Teoria dos Sistemas‑Mundo (TSM). Desde o início de sua formulação, nos anos 70, as TSM se espalharam numa diáspora acadêmica global, que em 2019 ficou órfã de seu principal motor. Interessado em meios de revolução social contemporâneas, Frank Jacob propõe novas formas de pensar e aplicar as TSM no século XXI, em colaboração com mais quatro autores. O que equivale, na visão dos autores, a renovar a essência crítica de Wallerstein, i.e., propor uma perspectiva de saberes “Wallerstein 2.0”.
Importante:
Se você ainda não tem familiaridade com Teorias dos Sistemas-Mundo ou Análises dos Sistemas-Mundo, recomendo a leitura de [Análises dos Sistemas-Mundo], uma revisão e análise bibliográfica que eu e o Lucas Maximo (meu então colega na graduação de Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba) desenvolvemos em 2014 como parte da avaliação da disciplina de Teoria das Relações Internacionais II (Terceiro Período, 2014.1).
(Sim, é grande. Baixe o PDF e peça para uma IA resumir, se não der conta da leitura.)
O atual sistema‑mundo é a unidade de análise das TSM, em que Estados‑Nação figuram a principal ferramenta de estratificação do trabalho entre zonas econômicas hierarquizadas, de centro, semiperiferia e periferia, cada uma com atividades menos lucrativas e tecnologicamente desenvolvidas que a outra, cujas fronteiras podem ou não coincidir com os territórios estatais. A contínua acumulação centrista de capital utiliza a predominância de agregados familiares de trabalho semiproletário na semiperiferia para drenar recursos primários da periferia. Centro explora periferia, que almeja se tornar semiperiferia, que almeja se tornar centro e luta para não cair na periferia. Partindo dessas noções fundamentais das TSM, os capítulos de Wallerstein 2.0 oferecem perspectivas inovadoras sobre história mundial versus história global, migrações, cultura e novos nacionalismos, revoluções, e educação antissistêmica no século XXI. Boa parte dessas perspectivas (capítulos 3, 4 e 6) derivam da ressignificação teórica e/ou metodológica das dinâmicas próprias da semiperiferia.
No capítulo 2, Frank Jacob adereça um ponto de conflito entre estudiosos da história, propondo as TSM como uma cesura definicional entre história mundial e história global, categorias de estudo que têm delimitação contestada na literatura. Aceitas as proposições das TSM, Jacob argumenta que “história mundial” se refere ao nível de análise do estudo histórico enquanto “história global” corresponde ao estudo do único sistema‑mundo de fato total (global) que conhecemos até o momento, que é a economia-mundo capitalista. Estudos sobre como o mundo se tornou conectado, ou sobre a construção do sistema capitalista de centro‑semiperiferia‑periferia, seriam história mundial, enquanto estudos sobre funcionamento deste sistema‑mundo seriam história global.
Logo, relações transregionais (objeto da história mundial) como guerras, migrações, colonizações, opressões religiosas, e explorações geoestratégicas, econômicas e militares, compõem o estudo de diferentes sistemas‑mundo. Conforme essas relações se intensificam, levando ao sistema‑mundo global, chegamos ao seu tipo mais recente, as relações transnacionais (objeto da história mundial). Assim, todos os estudos de história global também o são de história transnacional, mas nem todo estudo de história transnacional é necessariamente global, vide os casos de estudos regionais.
Voltado ao estudo de materialismo cultural e o fim cultural do liberalismo centrista, Stephen Shapiro usa o capítulo 3 para propor uma ressignificação da semiperiferia nas TSM. Longe de ser mera zona difusa de calibragem das contradições entre centro e periferia, o que Shapiro chama de zemiperiferia engloba também a interação entre uma gama diversa de zonas semiperiféricas que manifestam diferenças centro‑periféricas em cada nível espacial (macrorregional, nacional, regional, urbano, familiar), apreciando assim inovações sociais, organizacionais, tecnológicas e políticas características da zemiperiferia. Na zemiperiferia, portanto, estão os indivíduos informalizados cujas transumâncias não “culminam” em uma “migração completa”, sendo assim excluídos do direito de cidadania (citizenship) pelos Estados‑nação. Não obstante, argumenta o autor do capítulo, esses indivíduos constroem suas próprias subjetividades e cultura própria, devendo ter reconhecida sua “habitância” (denizenship) como categoria alternativa de acesso a recursos de dignidade social, baseada na existência física do indivíduo, indiferente a reconhecimentos estatais, status profissional ou origem natal.
Experta em Semiologia e Semiótica Jurídica, Giuditta Bassano propõe, no capítulo 4, um entrelaçamento analítico entre a estrutura do moderno sistema-mundo e um sistema de interações entre semiosferas: sistemas normativos culturais que compõem grupos humanos (religiosos, legais, epistêmicos), definidos parcialmente por seus respectivos núcleos normativos, mais rígidos, e parcialmente pelo encontro de suas “periferias”, gerando áreas de fronteira onde o encontro caótico de diferentes modelos culturais geram dinâmicas próprias de assimilação, exclusão, segregação ou admissão do “outro”. Trocando pressuposições econômicas e fronteiras geopolíticas pela análise de relações mútuas de significação (semiose) entre semiosferas, Bassano consegue delinear com mais clareza que as TSM originais, embora com maior complexidade, os limites entre zonas de centro, semiperiferia e periferia do sistema‑mundo, em diferentes níveis espaciais (regional, nacional, urbano, familiar) e dimensões (de classe, sexo, atividade, econômica). Assim, utiliza a semiótica como método explicativo aprofundado sobre fenômenos de criação e mudanças de fronteiras, processos migratórios globais e construção de nacionalismos, analisando as configurações posicionais de semiosferas no espaço.
James Horncastle, especializado em estudos de migração e refugiados, relações internacionais e história moderna da Grécia, demonstra no capítulo 5 como Estados de zonas periféricas e semiperiféricas são desproporcionalmente onerados com refugiados e migrantes em massa, que cruzam essas zonas rumo às economias de centro (dinâmica já familiar às TSM); e também como Estados de centro estariam dispostos a pagar aqueles outros para absorverem esses fluxos migratórios, garantindo a estratificação populacional que sustenta suas posições no sistema. Em especial, mostra como o Brexit e a ascensão de nacionalismos populistas europeus são reações políticas às dinâmicas migratórias descritas pelas próprias TSM; e como a mudança de conduta da UE frente a crise migratória na Grécia, da austeridade em 2015 ao apoio solidário em 2020, é uma estratégia de defesa existencial dos países centristas contra os influxos migratórios da periferia, da qual a Grécia é a principal zona de amortecimento de migrações rumo à UE.
No sexto capítulo, Frank Jacob aponta que a semiperiferia, mesmo agindo como zona tampão que atenua disparidades sistêmicas e isola dominadores e dominados, tem sido terreno de revoluções antissistêmicas após as revoluções de 1848, e não o centro, como supôs Karl Marx; vide China, Cuba e Rússia ao início do século XX, os movimentos antissistêmicos em 1968 e movimentos anti‑status quo sistêmico em países do MENA em 2011. Apesar de desempenhar as funções de estabilização sistêmica supracitadas neste e outros capítulos, a coexistência geográfica de valores e atividades contraditórias, de centro e periferia, faz das semiperiferias regiões ideais para sínteses revolucionárias; tanto para promover a alteração local e/ou sistêmica de padrões de exploração quanto para se promoverem ao centro, muitas vezes concomitante à queda de potências centristas para a semiperiferia. Esse potencial revolucionário costuma passar desapercebido por acadêmicos, pois as narrativas tradicionais mainstream têm viés autodescritivo estatocêntrico, que camufla as dinâmicas de fluidez do sistema‑mundo, cujas posições internas podem mudar via processos históricos de avanços e/ou declínios, mudanças tecnológicas ou o fim de fatores que determinem sua forma numa conjuntura particular.
Por último, Sebastian Engelmann, pesquisador de história e teoria da educação, modelos educacionais alternativos e educação democrática, busca, ainda de maneira insipiente, estabelecer vias de mão dupla entre as TSM e estudos de sistemas educacionais. O autor reconhece que a presença das TSM em estudos sobre educação é escassa, quase nula. A recíproca é quase verdadeira, mas Wallerstein chega a enquadrar sistemas educacionais como uma prática enrustida de dominação cultural centrista sobre a periferia, impositora de ideologias que conformam modos de produção e hierarquias sociais sustentadas em clivagens de raça, nação/cidadania, classe, etnicidade e gênero. Ainda assim, compreendê-los é o primeiro passo para poder desconstruí-los e possivelmente oferecer alternativas melhores. Especificamente, Engelmann escolhe como objeto de estudo a New Education de Hermann Lietz, pois mesmo embebido de valores nacionalistas, o seu fundador propõe a busca de compreensões universalizantes sobre a civilização, com tom ético humanista afeito às TSM, em especial por sua abertura recente a estudos decoloniais. Desse modo, Engelmann provoca acadêmicos abordarem de forma crítica o modelo de Lietz através das TSM, para descontruí-lo e possivelmente gerar um modelo educacional globalizante, promotor das ASM.
Leitura aconselhável a sociólogos, historiadores e estudiosos das relações internacionais, Wallerstein 2.0 oferece teorias e métodos globalizantes para o estudo de um mundo globalizado, com denso embasamento conceitual que faz jus à tradição de décadas das Teorias dos Sistemas‑Mundo.
P.s.: O texto está bem carregado. Da época do mestrado. Acadêmico, resumindo em 6 parágrafos de português 180 páginas em inglês de novas propostas de perspectivas de estudo para uma linhagem complexa das ciências sociais. Posso resumir e dar minhas impressões no assunto. Não vou ficar refazendo revisão bibliográfica ou aula (se for esse o caso, você receberá uma gentil recomendação de ler, pesquisar, pedir resumos a IAs, ou algo do tipo; com sugestões de perguntas a se elaborar após fazer esse dever de casa). Mas fique à vontade sim para fazer perguntas e desenvolver um bate-papo nos comentários (:
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