A arte de viver como quem já morreu
(Sobre como sair da dissociação existencial, com uma reinterpretação de memento mori.)
A vida passa como um gato correndo sobre um telhado de zinco quente. Somos instantes, que um dia serão apenas histórias. E um dia nem histórias seremos. Porque todos que se lembravam de algum detalhe ou palha da sua ou minha história para contar, já terão morrido. E aquelas que desconhecem todo detalhe de qualquer traço de nossas existências passadas, serão igualmente esquecidas e devidamente inexistidas nas vidas de quem segue.
Hoje é comum algumas crianças não saberem o nome de seus avós. Mas e seu bisavô, você lembra? Sua tataravó, você lembra o nome? E quem ela era, você sabe? Assim como você sabe da sua mãe? (Admitindo aqui que você saiba alguma coisa da sua mãe, claro…) E mesmo para quem faz algum estudo genealógico (sem nem aprofundar sobre os limites de alcance que esses estudos têm), os nomes no papel significam mesmo alguma coisa? Ou eles passam a ser fantasmas, tão vazios quanto a ignorância prévia de seus registros de nascimento?
Somos menos que insignificantes.
A maioria das pessoas pensa que teme a morte.
Mas o que temem mesmo é sua real finitude.
Porque finitude mesmo se assemelha à inexistência.
Duvida?
Veja só…
Em verdade, morreremos todos.
Somos como pré-cadáveres, animados por uma condição temporária de vida.
Mas em verdade, em verdade, somos menos que pré-cadáveres.
Somos menos que retratos borrados na parede.
Somos menos que dados em um sistema obsoleto.
Somos menos que letras numa lápide ou urna.
Somos menos que o progressivo anonimato dado pelos que nos esquecerão, ou pelos borrões lisos que um dia foram as letras das lápides.
Nós, de hoje, somos a inexistência prática de uma humanidade futura próxima; que desconhece até os últimos vestígios, que já terão sido esquecidos ou descartados, de nossa breve existência. E nenhum de nós tem privilégios administrativos suficientes sobre a estrutura de realidade para reverter nossa própria finitude. Isso é impossível.
Mas em vez de aceitar esse fato, a maioria apela para ilusões e estados de dissociação existencial para evitar o reconhecimento direto dessa realidade:
De forma direta, ao viver como se a morte não estivesse à espreita, sem nem falar ou sequer pensar no assunto;
E de forma indireta, ao pensar em como deixar legados, como partes de si que sejam passadas adiante (mas elas apenas serão apropriadas por quem ficará, que passará pelo mesmo processo de realização de finitude e inexistência que eu e você);
A tentativa de deixar legados atrelados à pessoa que se foi e aos nomes que “ficam”, é apenas uma convulsão dissociativa, um querer teimar contra a própria realidade posta, de sua inexistência prática no mundo (ou finitude).
O que prevalece então?
O que realmente importa?
(E “importância” já é uma palavra demasiado carregada de pretensões egóicas, então…)
O que prevalece?
E o quê de mim transparece naquilo que fica?
Pois sim, há sim o que transpareça.
Ou seja, há sim consequências que nossas vidas microepisódicas podem gerar em movimentos históricos de longo prazo, pelos decênios e séculos.
O deserto do “sempre foi assim.”
O que costuma prevalecer é o “sempre foi assim”.
Porque, afinal, sempre foi assim.
Desde antes de eu nascer, foi assim.
E antes de meus pais nascerem, foi assim.
E antes dos pais deles, também foi assim.
E depois de mim também será. Porque no fim das contas eu fiz, na média, um pouco mais ou um pouco menos, como sempre se fez.
E por que eu fiz assim?
Ora, fiz-lo “por que sempre foi assim”.
Pois me ensinaram, me inculcaram, me adestraram e me admoestaram para que eu sempre fizesse como sempre foi. E indiretamente me coagiram e explicitamente me ostracizaram quando não o fiz. E por quê? “Porque sempre foi assim.” (Assim me responderam.)
(E mesmo que eu fizesse diferente, que diferença isso faria no fim das contas? Se as coisas no geral continuarem como sempre foram, exatamente por que a maioria repete o que sempre foi assim, porque foi sempre assim?)
Tudo bem, talvez não seja exatamente “como sempre foi”.
Pois não existe um “sempre foi” absoluto.
É como as dunas de um deserto, que mudam de lugar ao vento com o passar dos dias. Que diferença faz as mudanças de posição das dunas aos andarilhos, além do senso de desorientação que acomete os que ainda não se acostumaram? A areia continua areia, o deserto continua deserto e as dunas continuam dunas. Sempre foi assim.
Que importa, que as dunas se movimentem? Afinal não sou eu, você, nem nós quem movimenta as dunas. É o vento. Nós apenas andamos em meio ao vento e sobre as permanências e movimentos inexoráveis das areias e das dunas no deserto. A areia é areia. O deserto é deserto. As dunas são dunas e mudam de lugar em seu próprio tempo. Assim é, como sempre foi.
O que prevalece é a posição das dunas.
Muito se mantém dos comportamentos humanos aprendidos, pois estes sim transcendem as mortes e os tempos de vida das pessoas.
É desafiador tratar deles, pois são coletivos. Embora sejam constituídos da soma dos comportamentos individuais, os comportamentos individuais, via de regra, pouco podem fazer para alterá-los.
E digamos que o deserto, com suas dunas de areia, seja uma alegoria para a consciência coletiva da humanidade. Por onde os andarilhos conscientes vivos passam, conformados aos padrões de relevo que o subconsciente apresenta, sutilmente moldado e determinado pelos ventos do inconsciente.
E digamos que esse mesmo deserto seja também uma alegoria para os modelos e estruturas de sociedades em que vivemos. Afinal, quanto dos padrões de pensamentos que temos e executamos sem precisar refletir não são subconsciente conformados e determinados pelos modelos e estruturas das sociedades em que vivemos? E quanto dos modelos e estruturas das sociedades em que vivemos não são criados, mantidos, reforçados e repaginados pela evolução dos comportamentos padrão subconscientes, que mantém sua consistência habitual e metódica, sem sequer precisar serem conscientemente aprendidos?
E caminhamos, enquanto vivos, mais ou menos conformados com o que é, que é mais ou menos como o que sempre foi. Muitos sem sequer se darem conta do silvo constante dos ventos inconscientes, movendo grão a grão o movimento que conforma o ondular das dunas e a aparente manutenção de suas formas.
A arte de viver como quem já morreu
A arte de viver como quem já morreu é: viver com o entendimento prático de que já estamos mortos.
Não é um exercício mental hipotético, como uma “arte de viver como se já se tivesse morrido” (porque isso ainda é um discurso dissociativo, que tenta negar a realidade material da morte).
É literal mesmo.
É literalmente viver, no curto prazo, como quem literalmente já está morto, no médio e longo prazo.
O que transforma essa aparente contradição em um paradoxo é a questão de escala. A arte de viver como quem já morreu exige que nós, humanos, viventes de curtíssima duração, sejamos capazes de vislumbrar as consequências de nossas vidas no longo prazo.
Como praticar o viver de quem já morreu?
Viver como quem já morreu é memento mori (lembrai-vos que morrereis).
E pode parecer que não…
Pode parecer que “lembrar-se que morrerá” e “viver como quem de fato já morreu” não são a mesma coisa. Mas eu defendo que sejam a mesma coisa sim.
A aparente diferença é por que memento mori não é o que parece ser à primeira vista.
A necessidade de memento mori
A noção de memento mori, do latim “lembra-te que vais morrer”, sugere o exercício mental de aceitar a inevitabilidade de sua própria morte. Não como uma fixação fúnebre ou mórbida, mas como um incentivo de valorizar o presente, vivendo com mais consciência e assertividade.
Afinal, os minutos aqui nessa existência são poucos. O que realmente importa? Qual o devido lugar e importância das coisas na minha vida? Memento mori é um catalizador das respostas a essas perguntas.
É uma noção que intuitivamente nos leva a ponderar aquela questão de escala, de curto vs. longo prazo… mas nem por isso, num primeiro momento, faz parecer que “lembra-te que vais morrer” pareça o mesmo que “vive como quem já morreu”.
E a impressão de diferença entre esses dois conceitos acontece porque intuitivamente conceituamos a “morte” em seu sentido vulgar — de curto prazo — ignorando seu significado mais profundo — de longo prazo.
A insuficiência de memento mori
A compreensão vulgar de memento mori - o entendimento de que “temos pouco tempo de vida na Terra” - é apenas uma porta de entrada.
E não é exatamente nossa “culpa” termos essa compreensão vulgar… Pois a própria necessidade da existência do conceito memento mori já denuncia que “o buraco é mais embaixo”, que o nível vulgar de ignorância sobre o assunto é extremamente absurdo.
Ora… o fato de precisarmos de filósofos estóicos que sugiram a prática de memento mori já mostra o quão cegos e dissociados nós (aqueles que ainda não vivem sob o lembrete constante e permanente à compreensão de que SIM, MORREREMOS!) somos.
Sério mesmo, pense por um instante sobre esse nível de dissociação absurda em relação a nossa própria existência:
É preciso mesmo que chegue alguém que nos lembre de que vamos morrer? Olhe à sua volta! Estude um pouco de história… Episódica mesmo, local, familiar. Não precisa estudar mais que 150 anos, nem pesquisar o mundo inteiro. Se tiver uns poucos neurônios, e com sinapse ativa, perceberá logo uma verdade: Pessoas morrem. E a grande maioria de nós precisa ser lembrada de que morrerá? O que isso diz de nós?
Que somos as antas imersas do pântano. É isso que a necessidade da existência do conceito memento mori diz de nós (e eu me incluo, tá? Porque preciso de memento mori).
Além de que nosso entendimento do significado de “morte” é parco. E tudo bem, seria de se esperar isso das antas imersas do pântano. Mas temos aí uma problema para resolver:
Memento mori enquanto lembrete, sem o devido entendimento conceitual de morte, é uma noção vazia, inútil. Ou, no mínimo, incompleta (nos casos em que ela já cataliza alguma reflexão em quem pratica esse lembrete diário).
É como pedir que alguém lembre de uma palavra da qual ela desconhece o significado. Um lembrete vazio.
“Lembra-te que morrerás.”
Sim. Mas o que é morte?
É quando um corpo deixa de ser animado?
É quando o pré-cadáver chega ao seu estado final?
É só esse sentido curto-prazista mesmo?
O que é morrer, num sentido mais profundo?
A grande maioria se recusa a olhar para a morte.
Muito menos então para o seu significado mais profundo.
De que vale seu “lembrete” (memento mori) sem compreendê-la?
O que é morrer? (e por que memento mori é viver como quem já morreu)
Eu sugeri ao início que as pessoas têm medo da inexistência, mais do que a própria morte, como se morte e inexistência fossem distintas. Mas não são. Lembre-se:
[…] aquelas [pessoas], que desconhecem todo detalhe de qualquer traço de nossas existências passadas, serão igualmente esquecidas e devidamente inexistidas nas vidas de quem segue.
Talvez você tenha passado batido por esse detalhe, por que ele é incômodo. Mas atente-se: todas as pessoas serão devidamente inexistidas nas vidas das pessoas que vêm depois.
Inexistidas mesmo.
Sem consequências práticas de suas existências.
Retiradas em absoluto de sua manifestação.
Porque morreram, física e abstratamente.
As evidências materiais de suas existências se foram.
E as lembranças do que fizeram, também.
As que ainda não morreram morrerão e serão igualmente apagadas e esquecidas. Nem mesmo alguma mudança nas dunas ou estrutura do deserto mudará isso. Porque os vivos têm mais o que fazer do que ficarem lembrando de todos os mortos que já se foram, que eles nem sabem quem são.
E isso, esse exato entendimento, é viver como quem já morreu.
Não é pensar em viver “como se já se tivesse morrido”. Nem viver lembrando que “um dia se morrerá”.
Por que a inexistência das vidas individuais humanas não começa no óbito do corpo.
Essa inexistência já está posta agora, pela nossa própria condição congênita de finitude de nossos corpos.
Memento mori mesmo não é lembrar que nós “vamos” morrer. É entender o verdadeiro valor presente de nossas vidas individuais (curto-prazistas) na história da humanidade (de longo prazo): nenhum.
É compreender que (pela perspectiva prática da matéria), hoje mesmo, nós já não existimos para toda a humanidade que nos sucede.
Até mesmo em vida, já somos e seremos esquecidos.
Praticar memento mori não é a arte de lembrar-me que um dia morrerei. É a arte de viver consciente de que já morri, no sentido literal de que agora mesmo eu já nem existo mais diante da humanidade.
E a importância da vida humana?
Mais uma vez, dizer que a vida e consequências práticas de uma vida humana são nulas (ou insignificantes) é apenas uma questão de escala. Isso só é verdade se encararmos a morte de longo prazo, que coincide com a finitude de facto.
É a constatação de que as coisas individuais aqui na escala temporal curto-prazista em que vivemos não tem relevância ou importância para a escala temporal da humanidade, que é de longo prazo. É uma constatação literal e material do niilismo (entendimento de que as coisas não têm um valor intrínseco ou apriorístico), mas não necessariamente um convite à depressão ou autodestruição.
A visão de longo prazo não anula a de curto prazo.
E vice-versa, também.
Elas são apenas… distintas.
Podemos alternar entre elas.
E talvez um estado mais avançado da arte de viver como quem já morreu seja suavizar a transição interna entre essas perspectivas… até que as empreguemos de maneira simutânea.
Todo o enfrentamento das alegrias e dores, das conquistas e dissabores, cotidianos e que transpassam os anos, de nossas poucas décadas de existência, deve ser tratado com respeito. Inclusive, saber voltar para a perspectiva de curto prazo talvez seja uma das maneiras de prevenir adoecimentos psiquiátricos. E falo sério aqui, isso é um lembrete para mim em primeiro lugar.
Carpe diem, shoshin, hidratação, higiene do sono e exercício físico regular ainda são as melhores chamadas para o curto prazo. Lembre-se de que somos como plantinhas fitness, que precisam de sol, água, nutrientes e movimento para viver; mas também temos umas emoções complicadas, então interagir com pessoas e fazer terapia para sobreviver a esse processo também são boas chamadas.
Mas e a possibilidade de mudança?
Mas e se não for “sempre assim”?
Se o que fazemos mantêm as conformações das dunas e elas nos levam a conformá-las, existe algo que possa ser feito para que o cenário mude? Se existe algo que possa ser feito, há algum paradigma que nos permita ver o que seria isso?
Mmm… Hehe.
A resposta mais sensata é:
Não faço ideia. Não sei.
Essas questões, queridos e queridas, estão além do que uma mente humana é capaz de elaborar com funcionalidade, lucidez e segurança.
Dar uma opinião sobre isso seria apenas achismo travestido de sabedoria. Pois o que pode uma pessoa dizer sobre essas questões maiores que a vida, se ela mesma ainda enfrenta desafios táticos da vivência social e emocional, das subfrações do curtíssimo prazo de duração da própria existência de seu corpo?
Qualquer comentário seria, no mínimo, duvidoso.
Não estamos mais no século XIX, em que as fraquezas pessoais e humanas não chegavam nos livros de filósofos. Hoje sou apenas um ensaísta na Internet.
Mas é uma bela questão para levarmos para a vida, não é?
O que poderíamos fazer para mudar a estrutura das dunas no deserto?
(Lembrando que o deserto, com suas dunas de areia, é uma alegoria dupla, para a consciência [consciente, subconsciente e inconsciente] coletiva da humanidade e para os modelos e estruturas de sociedades em que vivemos.)
Esse foi um ensaio de A Longa Jornada de Mim.
© 2026 Theo Sant’Ana. Este texto é protegido por leis de direitos autorais. A reprodução total ou parcial não é permitida sem autorização expressa do autor.
P.s.: Tá, mas e se eu quisesse ensaiar uma resposta mesmo assim?
Nós, aqui, cientes de minhas limitações.
Eu ciente de que daqui para frente são só elocubrações delirantes. E você ciente de não me vai me cobrar soluções de verdade… Né?!?
Mas você sabe que eu posso surpreender com minhas respostas.
Mas por que mudar?
Primeiramente, por que pensar em mudança?
Você não está satisfeito(a) com o deserto?
Satisfação talvez ninguém tenha, mas…
Não dá para ficar acomodado(a) não?
Até morrer? É rapidinho, já já passa.
A vida é um estalar de dedos.
Eu mesmo te digo: não. Esse é só o meu ponto de vista, que eu te explico por que aqui:
"Mãe, por que toda criança pobre tem a pele escura e cabelo enroladinho?"
Eu não consegui superar as observações que o Theo de 5 a 7 anos de idade fez. Agora, com 32 anos, eu ainda estou comendo os ensinos das mãos dele. Ele, em grande medida, para uns assuntos específicos, é um mestre que me guia nas ponderações éticas sobre as angústias, misérias e desgraças que ocorrem há milênios no mundo, sem apresentar grandes perspectivas de melhora.
Mas é uma questão pessoal: te incomoda a estrutura do deserto? (E estou falando da alegoria aqui. Se necessário releia “O que prevalece é a posição das dunas”, acima, pois vou avançar evitando explicações repetitivas.)
Te incomoda que o cenário geral seja seco, áspero, tórrido e hostil? E que uns poucos atravessadores sejam parcialmente beneficiados entre os posseiros dos oásis cercados e os demais?
Lembre-se de que as impressões sobre questões sociais são “metáforas” ou reflexos dos comportamentos que nos são comuns e familiares por conta do aprendizado inconsciente e absorção/reforço cultural. E vice-versa.
Se não te incomoda, também não te interessa as possibilidades de mudança, e ler esse trecho final é uma perda de tempo.
E não estou aqui para julgar valores, por que não há moralidade na lucidez; apenas racionalização ética, para os que a buscam. Para quem realmente compreende o que está fazendo, binômios morais (certo e errado, bem e mal, desejável e repreensível, louvável e condenável, etc.) não têm significância. Há apenas consciência, ações e consequências.
É preciso o incômodo para querer a mudança.
Mas o que podemos fazer, se somos menos que insignificantes e o que prevalece é a posição das dunas?
Ética e Fé na mudança
É preciso ter alguma fé. Mas fé, para os niilistas, precisa ser raciocinada. O que nos leva a um novo paradoxo na arte de viver como quem já morreu: a fé na mudança.
Como mudar as estruturas sociais e comportamentos-padrão dos indivíduos na sociedade? Com a única parte que nos compete: nosso próprio comportamento. O meu próprio comportamento, para ser mais exato. (Eu leio dizendo “meu” e você também, na primeira pessoa.)
E o que é mais curioso: no mais curto prazo das pequenas vivências de curtíssimo prazo que temos por aqui, chamada “cotidiano”. No dia a dia, comigo mesmo, começando nos diálogos internos. Ciente de que prática comportamental tem muito mais poder educativo que o discurso, sobre mim e sobre os que me cercam. Palavras podem convencer, mas o exemplo arrasta.
A sensação de paradoxo está no abismo que separa a revolução de uma conduta individual de uma revolução geral da sociedade. Pois uma pessoa só é como uma gota d’água desafiando um oceano de conformismo. Diria Madre Teresa de Calcutá que o oceano não é o mesmo sem essa gota (em réplica a tentativas de menosprezo que ensaiaram contra seu trabalho, com a metáfora do oceano e a gota d’água). E a impressão que tenho é que o mar não deixa de ser o mesmo pela diferença que “aquela gota” faz, mas pelo potencial que ela tem de influenciar quem está ao entorno, através de sua prática inquebrantável.
A fé (do latim fides, que originalmente tem significado mais próximo à “fidelidade” do que à “crença”) é com o entendimento de que há a possibilidade de um novo reinado no deserto. E que esse reinado não é possível sem um povoado ou vila que o enseje. E essa vila não seria possível sem a primeira família que começou a conglomerar outras. E o primeiro núcleo sólido não era um núcleo, mas sim uns poucos indivíduos revolucionários. E provavelmente esses indivíduos foram inspirados por um que iniciou o movimento.
Não estou dizendo que é fácil ou simples. Estou sugerindo que a possibilidade existe, demostrando que é plausível. E agir com fé na mudança é fidelizar-se com essa possibilidade.
Porque o deserto não é uma estrutura completamente independente de nossas condutas. Se uma quantidade crescente de pessoas começar um cultivo persistente, eventualmente o tímido frondescer dos esforços atrairá alguma chuva. Pois o inconsciente conspira ao favor do que queremos. Mas precisamos querer mudança. E querer não é dizer querer, é fazer querer.
E tudo começa no compromisso pessoal da retificação dos próprios pensamentos e emoções, principalmente quando ninguém está olhando (na verdade, talvez essa seja a única instância em que a prática “ética” realmente tenha relevância). Mesmo com as pequenas coisinhas, aparentemente insignificantes.
Mas não são insignificantes. A Pamela Melo até dá um exemplo (nesse artigo aqui) sobre a irredutibilidade do marido dela sobre o que ele acha certo e errado. Sobre uma coisa pequenininha, no trânsito, aparentemente pouca. Uma besteirinha, aparentemente. Mas não é. É um exemplo de retificação de conduta ao que ele já entende como o melhor dentro dos parâmetros éticos que ele cultiva.
Por que se não for assim, reinará a hipocrisia, como já reina. Com o “faça o que eu digo, não faça o que eu faço", com o “sim, todo mundo sabe que o certo é isso, mas na prática…” e outros traços de conformidade subliminar treinada, que conformam a realidade, dura como o aço.
E como diz um amigo meu, para quebrar um aço, só um aço maior ainda: a ação.
Viver como quem já morreu permite viver com ações que transcendam a morte.
É aqui que chegamos à subversão de viver como quem já morreu.
Viver como quem já morreu, surpreendentemente, nos permite uma ação transcendental ao conformismo e à própria morte.
O reconhecimento fatal de nossa insignificância poderia nos convidar a um poço de conformismo. Mas ao compreender a fatalidade da prevalência das dunas sobre nossas míseras existências, podemos agir de forma mais consciente exatamente sobre aquilo que afeta a qualidade e forma dessa prevalência.
Viver como quem já morreu nos permite plantar sementes de mudança, mesmo sabendo que não veremos sequer o broto da árvore. Aos que se incomodam o suficiente com o deserto e vivem como quem já morreu, plantamos mesmo assim.
Porque não estamos cegados pelos cabrestos do curto prazo de nossas existências passageiras. Porque sabemos que os comportamentos aprendidos são o que prevalecem de nossas vidas após nossas mortes. São eles que conformam as sociedades em que vivemos e a impressão de que “sempre foi assim”.
E se sempre foi assim “porque sempre foi assim”, então é plausível que seja diferente porque fazemos diferente.
Empenharmo-nos em semear mudanças de comportamento, pela autoedecaçāo é educação ao próximo, é a conduta mais potente para quem almeja mudar a dinâmica das dunas. Até por que, talvez, seja a única possível.
Empenhar-se numa conduta ética que reflita num comportamento coerente, arrastando pelo exemplo o comportamento de quem o cerca, é o ato mais próximo de contribuição à humanidade histórica que alguém pode fazer.
Pois sim, morreremos. Já morremos. Já não existimos. Mas os comportamentos aprendidos transcendem nossas mortes e prevalecem no tempo para além de nossos curtos prazos de vida.
A única maneira de mudar a posição prevalecente das dunas é pela conduta ética individual, pois sem várias dessas mudanças não há alteração coletiva.
E qualquer um pode desenvolver conduta ética, com ou sem motivos e explicações para fazê-lo.
Mas a visão de quem vive como quem já morreu certamente é um bom incentivo para essa prática.
Gostou?
(Eu coloco minha alma e coração aqui toda semana. Toda contribuição sua, pontual ou recorrente, é bem-vinda. Já te agradeço.)

P.p.s.: Para fazer essa publicação, eu usei o seguinte setup autoprovocativo, que é um dos 5 passos simples de uma linha de produção textual de um Processo Criativo Explosivo para sua escrita:
Para aprender como dar conta de mais de 30 rascunhos simultâneos usando uma linha de produção textual de apenas 5 passos, e como ter pelo menos 7 boas ideias por semana, de propósito, confira a publicação:
Processo Criativo Explosivo (para sua escrita)
Esse é um método de linha de produção textual criativa usando 5 passos simples, e um bônus ao final: como ter pelo menos 7 boas ideias por semana, de propósito.
P.p.p.s.: Por aqui eu falo de muita coisa que não é impermanência humana e memento mori. Se você gosta de reflexões intimistas, histórias e contos, crônicas, opiniões existenciais, e ensaios, críticas e resenhas, de temas variados, com essa mesmíssima pegada de redação e uns lirismos a mais nos poemas, o ritmo é esse:
Um post por semana, aos sábados (e talvez outras no meio do caminho).
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Poesia às quartas-feiras. Sempre gratuita.
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