Drag Path
(Uma carta incomum para a Poliana e aquela conversa profunda que tive com a Nathalya)
Eu sei, Poliana, que estou aqui escrevendo algo que você provavelmente não lerá. Agendei a publicação para hoje, dia do meu aniversário, como um apelo à sua leitura, que provavelmente não acontecerá.
Mas, just in case, se você ler, fica melhor ouvindo esse primor no repeat, bem baixinho:
Sério, moça, se você está lendo agora sabe que é com você mesma que estou falando. Não tem como confundir a origem da playlist que deixei ao final desse texto.
Inclusive, adicionei essa aí do Twenty One Pilots, ao fim. Mesmo que não tenha sido uma música que nós dois dissemos que gostamos (só coloquei nessa playlist aquelas que nós unanimemente dissemos que gostamos, exceto Drag Path).
Eu quis te enviar, achei linda, lembrei de ti. Acho que você responderia com seus monossilábicos gostei!, que faziam meu coração palpitar aqui do outro lado da Internet, acompanhados de uma sugestão de música que iria para a playlist também. Mas não enviei, porque você pediu que não falasse contigo e que não insistisse.
Então tá aqui, caso você leia.
Eu comecei a sentir que estava chegando perto da aceitação do luto de não saber quando (ou mesmo se) vou poder falar contigo, como falávamos antes de você pedir para parar, sem explicação ou proposta de data de retorno, quando comecei a materializar umas falas de despedida que não pude te entregar.
Uma nota no substack sobre “quem semeia vento”. Mensagens nos stories do Instagram, que poderiam atender ao seu olhar e entendimento, mas você nunca mais visualizou meus stories no Instagram. Uma fala ou outra aqui e ali, esse texto agora, breadcrumbs along the road, que ao fim você provavelmente não verá.
Será isso aceitação mesmo?
(Raiva e tristeza eu sei que já senti bastante.)
Será que é negação?
Deixar uma mensagem para você ler seria uma forma de negar a possibilidade de você nunca mais falar comigo?
Será que é barganha?
Mesmo que a situação esteja fora do meu controle, ainda fico aqui tentando abrir e ses para possibilidades distantes, confiando num longshot?
Agora, ao escrever, eu acredito que seja como aquele papo que eu tive com a Nathalya (mentira, o nome é outro), quando ela tava terminando com aquele namorado dela pela sétima ou décima primeira vez (pasme, é verdade).
O nome dele era Luiz (mentira, mas é só para você saber que não fui namorado da Nathalya; eu e Luiz realmente somos pessoas diferentes no palco da vida).
Tadinha. Ela tava doída, a Nah.
Graças ao Poder, era o último término.
A gente não sabia nem acreditava, mas era.
Tantas coisas que ela disse para aquele idiota, mas ele não entendeu, não absorveu, era o mesmo que falar com a parede.
Na verdade, ela começou falando sobre o sentimento de não ser compreendida na relação. Theo, eu falei tantas vezes para ele o que era importante para mim, que não dava para seguir o relacionamento sem mudar aqueles pontos, por que era inegociável para mim…
Eu sei, Nathalya, é duro se sentir abandonado no campo semiótico da relação.
… e assim, não era uma mudança, não era uma novidade. Eram coisas que eu deixei claro desde o começo, mas que quanto mais a gente se aproximava mais parecia que ele levava na brincadeira.
É “relacionamento abusivo” o nome, né?
Mas Nah, você falou com ele de um jeito que até uma criança entenderia?
Hahahahaha, lógico que sim.
Se não, não seria a Nathalya.
E ela sabia das limitações do Luiz.
Sim! Nossa, várias vezes.
E eu sabia que sim. Eu só estava perguntando para ajudar a gravar uma ideia.
Então, Nathalya. Eu sei que é foda.
Mas a parte boa é que que você tem certeza de duas coisas: uma é que você falou de um jeito que até uma criancinha entenderia… e pausei para vê-la balançando afirmativamente a cabeça… e a outra é que ele com certeza não vai entender. Provavelmente, nessa vida, ele não vai sacar. [pausa]
Ela balançou afirmativamente, bem devagar, meio confusa com o rumo da conversa.
E é isso, minha querida.
Olha, ele não vai entender mesmo. Não é só burrice. Ele está incapaz de entender o que você diz, por conta de um monte de costumes e ideologias que ele nem se dá conta que existem, e quando falam disso ele não quer ouvir. Mas eu realmente acredito que é importante deixar tudo bem explicado. Sempre.
Por que no dia que ele tiver capacidade de pensar diferente e lembrar do que você disse… se isso acontecer… vai ser como aquela sensação de alguém dizendo “eu avisei”, sabe? E não é para esfregar na cara dele. Na verdade, é um último ato de compaixão, seu para ele. Por que ele pode se arrepender e, quem sabe, começar a mudar de verdade.
E a cara dela começou a dar sinais de entendimento.
Vai por mim, isso é super importante… se você quiser demonstrar essa compaixão, claro. Olha, vou te dar meu exemplo pessoal. Tem coisa que minha primeira namorada me disse, a Joana, que eu só fui entender uns 7 ou 9 anos depois. NOVE ANOS, sabe? Por que ela fez questão de dizer.
Nem tenho mais o celular dela, não sei por onde ela anda. E eu podia ter memória curta, não lembrar e, pra mim, não ia adiantar de nada ela ter dito… Mas ela disse mesmo assim.
E eu imagino, sabe Nathalya… não faz diferença se eu lembro. A Joana não deve ter arrependimentos, por que ela fez e disse tudo que podia. O bônus que eu estou ganhando agora é ter isso na memória de longo prazo, porque estou aqui aprendendo com ela e entendendo várias coisas, quase uma década depois.
A sacada é que a Joana e a Nathalya fizeram isso por que se permitiram o ímpeto de manifestar suas impressões e emoções. Isso é ótimo. O que eu quis mostrar para a Nathalya é que isso pode ser suficiente para servir de lição para o Luiz, no momento em que ele se abrir para isso (embora eu ainda duvide da memória de longo prazo, abertura pessoal e astúcia do Luiz, mas aí é com ele).
Não tinha nada mais que ela pudesse fazer, mas fazer o que fez já foi bastante coisa.
Porque não é uma questão de esperar que o outro ouça. É sobre agir de forma que eu consiga atender a diferentes momentos de sua compreensão. Por que o lugar que o outro ocupa em mim é tão relevante que eu quero que a mensagem da minha alma esteja com ele mesmo quando eu não estiver mais ali.
Até por que há momentos em que se afastar é a única conduta digna possível. E para quem ama, até mesmo lançar a semente de uma nova visão de mundo para o futuro de alguém com quem não conviveremos é um gesto válido de amor.
Para quem ama, todo gesto de amor ainda é pouco.
Agora de volta aqui para ti, Poliana, antes de você chegar na nossa playlist.
Eu aceito que talvez você nunca mais fale comigo, como falávamos. E aceito que talvez nunca leia isso aqui. Mas não quero me arrepender por não ter deixado essa mensagem aqui, caso um dia você possa vê-la.
No momento em que te escrevo isso, eu quero muito falar contigo. Só te desejo o bem, do que é bom no bom. Desejo para ti, para mim e, se possível, para nós.
Não dá para dizer o que eu quero dizer aqui.
Nem cabe, na extensão, no meio, no contexto.
E é por isso mesmo que escrevi assim.
Por que não dá para ficar por tempo indeterminado, segurando em suspenso o que ocupa um coração inteiro, sem entender o que aconteceu e sem perspectiva de fechamento. Então deixo aqui a carga deste momento, como um totem na beira do caminho, para poder seguir adiante.
Eu conheço bem o lugar de início que esse totem marca e a direção em que quero levar nossa conversa a partir dele, no momento em que te escrevo isso. Espero, inclusive, enquanto escrevo, que você não precise ler isso aqui para querer falar comigo. A porta está aberta, você sabe. Eu te disse que está.
E se você vier conversar muito depois, e já não der mais para começarmos desse lugar que eu planejei, nem seguir na direção que eu estou querendo enquanto escrevo, quero que você saiba que te quererei bem mesmo assim. A porta do coração está aberta, independente do destino pretendido e do ponto na jornada.
E eu não terei nenhum problema em te contar que lugar e direção foram essas, dessa viagem que eu planejei e não poderemos mais fazer. Quem sabe ainda poderemos fazer outra viagem, passeio, ou um programa qualquer.
Eu costumo ter o cuidado de não compartilhar histórias pessoais enquanto elas ainda estão vivas.
Por uma questão de segurança emocional e social, é melhor esperar as páginas virarem, as histórias fecharem, as trilhas esfriarem, as lágrimas secarem e a vida seguir. E só depois publicar. Com as devidas alterações para preservar a dignidade de quem escreve e a dos personagens que são escritos, claro.
Mas dessa vez estou publicando isso aqui antes, para poder virar a página.
Escrevi tudo isso ouvindo Drag Path no repeat.
E agendei a data de publicação assim que concluí a redação, para 45 dias após a redação.
This playlist is the sad sack laying on the surface:
Muitas pessoas estão lendo esse post, mas só uma é a moça para quem escrevi (se é que ela leu).
A mensagem te tocou?
Me diz nos comentários, o que você sente que vale a pena dizer.
P.s.: Na data dessa publicação, ela já não me representa. Mas representa bem um momento que eu vivi, e quis compartilhá-lo contigo ainda assim.
Essa foi uma reflexão intimista, uma história de A Longa Jornada de Mim.
Gostou?
(Eu coloco minha alma e coração aqui toda semana. Toda contribuição sua, pontual ou recorrente, é bem-vinda. Já te agradeço!)
Por aqui eu falo de muita coisa que não é história ou choradeira saída do diário. Se você gosta de reflexões intimistas, histórias e contos, crônicas, opiniões existenciais, e ensaios, críticas e resenhas, de temas variados, com essa mesmíssima pegada de redação e uns lirismos a mais nos poemas, o ritmo é esse:
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P.p.p.s.: Se você fez as contas, sabe que eu escrevi isso aqui na quarta-feira de cinzas e agendei para o dia 4 de abril, meu aniversário. No dia 4 de abril, tive uma atualização sobre Poliana:
Como eu disse, ela está bloqueada no assunto “romance”. Prova viva de que eu evito bloquear pessoas inteiras. Para entender o que estou dizendo, recomendo:
© 2026 Theo Sant’Ana. Este texto é protegido por leis de direitos autorais. A reprodução total ou parcial não é permitida sem autorização expressa do autor.


Esse texto me lembra de algo que assei com uma garota há mais de 15 anos atrás e como percebo que até hoje, nas raras vezes que nos vemos ou nos falamos pela intenet, ainda fica uma tensão leve, quase elegante entre eu e ela. Já pensei em escrever sobre algo assim ou sobre a minha primeira namorada, mas não tenho as manhas que você tem para escrever tão bem e sincero sobre esse tipo de coisa.
Eu li e reli novamente esse texto e eu estou embasbacada em como ele é cru, não em um sentido ruim, mas como ele é despido de sentimento, de luto. Voce deve ter amado muito essa mulher, espero que o tempo tenha apaziguado contigo e que esteja bem onde quer que seja. Simplesmente amei!