O nome dela é Joana, parte 4
Perdas, perdas, meu romance com Alice, e mais uma perda.
Dessa parte da história em diante, eu já não fumava, nem bebia, nem falava palavrão. Nem fazia uso de qualquer outro entorpecente ou lixo químico, também. Exceto açúcar. Mas já tomava café sem açúcar. E comecei a passar mal quando inventava de mentir ou fazer alguma coisa desalinhada com meu senso ético ou moral. Feito Joana, na parte 1, antes de me conhecer. Eu sei, não faz sentido. Precisamos de um interlúdio.
Na verdade, esse é um período da minha vida que eu ainda não tinha parado para avaliar com cuidado antes de me propor a redigir… “Joana”. E eu já te disse antes de forma explícita, mas daqui para a frente ficará mais claro o que exatamente é Joana.
Se você não leu ou não se lembra dos detalhes de O nome dela é Joana, parte 3, faz favor. Lembre-se que esta é uma série. Não faz sentido ver o episódio 4 sem ter visto ou sem lembrar do 1, 2 e 3. Se necessário, releia-os:
Andiamo.
O que fica depois que tudo acaba?
…
Mais do que eu gostaria.
Porque eu queimei.
Eu toquei fogo.
Eu incinerei os diários de Joana.
Eu vi Jô — o toy art que ela me deu — murchar com as chamas e ser reduzido a uns pingos pretos e fumaçantes de estofado de pelúcia. E ainda assim eu me lembro do formato, textutra, cores e detalhes de Jô. Assim como me lembro que alguns diários descreviam diálogos de Joana com sua oma, sobre a vida e o então pretenso namorado dela (eu). Como igualmente me lembro dos detalhes do que já te contei, os que ainda não contei e os que não contei nem vou contar, mas lembro… da minha história com Joana.
Mas todas essas lembranças ocupam seus espaços com a mesma… presença. Memória de longo prazo superior é assim.
É claro que seria mais pesado, ter ainda hoje os objetos físicos que me remetessem às lembranças dela.
Mas eu me pergunto… de que adiantou tê-los queimado?
Se ainda lembro de sua caligrafia em tinta azul tinteiro, contando seus dilemas internos em seus cadernos pautados?
Se ainda sei as letras das duas primeiras músicas do CD que ela me deu, assim como ainda tenho uma vaga noção da impressão artística que ela fez sobre ele?
Se ainda sei o que diz o versículo do livro sacro que ela me deu quando me dispus a estudá-lo, que ela discretamente sublinhou em grafite e quase chorou de alegria quando o recitei sem que ela esperasse, pedisse ou perguntasse?
Se passei mais de dez anos praticamente sem conseguir conseguir ouvir um álbum de Foo Fighters (One by One, na época o meu favorito), porque era dele a estampa de uma camiseta que ela me deu em um dia dos namorados?
Eu me pergunto…
Eu me pergunto por que raios eu não consegui esquecer.
E depois de muito imaginar, sonhando acordado, que a encontraria em qualquer lugar por aí, eu me perguntei se vê-la realmente nos faria algum bem. Ou se eu seria capaz de tirar bom proveito. Bom proveito do que fosse possível mesmo, de simplesmente saber se ela estava bem ou não, namorando ou não, se eu poderia chorar de tristeza na frente dela ou não, se ela aproveitaria a chance de gritar comigo ou não (provavelmente não, que ela não era disso, mas nunca saberemos).
Eu me pergunto…
Que teria sido de mim se eu tivesse abandonado o curso de graduação, como eu pretendia, depois que Joana se foi?
Para me entorpecer cada vez mais, como eu queria?
Agravando a situação em que eu já me encontrava?
Eu me perguntei várias vezes se teria saído vivo daquele ciclo descencional em que me coloquei. Com o tanto que saía e com os novos conhecidos e contatos que fazia. Em poucos meses de reflexão, depois que tudo passou… concluí que eu não teria sobrevivido. Sim, estou sendo literal.
Pelo menos não se eu fizesse o que quis fazer.
Mas eu conheci um zé ninguém, lá no meio do tempo, que me ajudou a dar uma desatada na minha vida. Eu diria até que ele desatou minha vida, mas ele replicaria dizendo que fui eu mesmo.
Zé
Sabe que todo homem, quando não tem nome, aqui no Brasil se chama de Zé, né?
Pois é.
Tem umas ideias interessantes… “Zé”.
Inteligência e capacidade analítica eu já tinha, mas muito da maneira de pensar que eu desenvolvo hoje veio dele. Ou melhor, do meu esforço em espelhar aquilo que eu entendo que seriam posicionamentos e padrões de pensamento que plausivelmente conformariam as proposições, sugestões e ideias que ele traz.
Inclusive ele não gosta que se use a palavra “muito”, por que literalmente significa demais mesmo. Palavra tem poder e significados que são manifestados pela fala devem ser evocados com cuidado — ao menos é isso que ele diz… e faz sentido. Mas eu uso, o muito. Não uso muito, mas uso sim essa palavra e umas outras proposições léxicas que ele até desaconselha. Porque se eu falasse aqui o dialeto brasileiro que ele propõe, você não entenderia coisa alguma.
Se você me perguntasse quem é Zé (em itálico, para você não pensar que se trata do Zé Renato), eu não teria como te dizer.
Onde ele está? Não sei. Quantos anos ele tem? Então, jovem, essa pergunta não se aplica… pois supostamente está “morto”, ele — no entendimento comum que se tem por aí do que é vida e morte. Não tem corpo que ele habite enquanto vivente aqui na Terra.
E não, eu não acredito que ele exista. Também não acredito que ele não exista. Por que não altera em nada a sua suposta existência ou inexistência, e também o fato de eu acreditar ou desacreditar nessas possibilidades.
E não me importa que você acredite ou desacredite na suposta existência dele ou no que eu estou dizendo. Inclusive, não acredite no que eu estou dizendo. Mas não descarte a possibilidade dessas palavras, também. (É mais ou menos assim que ele fala, e para esse lado que ele costuma levar a conversa.)
O fato é que eu vou falar aqui como se Zé existisse e fosse um personagem. E que se comunicasse através de uma pessoa que supostamente seria capaz de falar por ele aqui na Terra. É “médium”, que os espíritas chamam. Médium, cavalo, mediador, canalizador, tanto faz. Todos os termos a gente usa e entede, lá no terreiro.
Pouco importa o nome do médium e o nome do terreiro.
E eu sei, eu te disse que eu nunca — nem antes, durante ou após o período com Joana — tive religião. É verdade, em partes… depende da perspectiva. Se você me perguntar se eu tenho crença religiosa ou aceito dogmas definitivos sobre a existência, te respondo que não. Sigo algum rito ou liturgia por crença? Tampouco.
Mas participo de uma instituição religiosa, na condição de membro? Sim, no corpo voluntário de trabalhadores. Estou, inclusive, em certo nível na hierarquia administrativa, que não é a “base” nem o “topo”. Para efeitos legais, posso, devo afirmar e afirmo mesmo que sou “religioso”. E modulo meu comportamento com diversos rituais da casa, porque há uma orientação de conduta clara para quem pretende participar da instituição. E eu participo, voluntariamente.
Minha vinculação no centro é mais filosófica que dogmática. E se o discurso de Zé — acolhido pelos próprios dirigentes — não encorajasse essa conduta mental, eu não estaria lá. Mas essa não é a parte importante.
O importante é que Zé acabou com as amizades que eu tinha.
Não sobrou pedra sobre pedra, sumiram.
Hoje compreendo e agradeço a ele por isso.
Na época só agradeci, sem compreender mesmo.
Mas foi duro.
E você pode dizer que não foi Zé que fez nada, que foi só coincidência e eu interpretei que foi ele. Para mim tanto faz o que foi e o que você acha… porque foram senhoras coincidências. Houve mudanças internas, mas também associadas a mudanças externas que estavam completamente fora do meu controle.
Lembra do Luan?
Ah, Luan, meu brother.
Foi quem estava e esteve comigo, antes durante e após Joana. Mas depois de Joana, por pouco tempo.
Já o pessoal da graduação…
Curiosamente, ninguém da minha vida de bebedeiras no centro histórico continuou na minha vida, no dia a dia. Uns porque, como Luan, divergiram os caminhos de vez. Mas outros sumiram de forma estranha.
Desistência de curso. Mudança de período do diurno para o noturno. Retorno para cidades e estados de origem, como a Isabela. Mudança para nova universidade ou para cidades diferentes… Não sobrou um.
Claro que tiveram novas pessoas, principalmente os novos ingressantes do curso, mas a verdade é que eu nunca soube aguar as plantinhas. E também nunca me entendia ou me identificava com o cotidiano das pessoas, meus pontos de contato maiores eram os assuntos do curso mesmo.
Joana, então…
Cara, eu nem sei o que falar de Joana.
Nessa época eu ainda nem tinha feito aquela ligação para ela (que só aconteceu dali a dois anos), não fazia nem um ano que eu a tinha visto pela última vez e não sabia. É possível que boa parte dessas despedidas tenha acontecido enquanto ela ainda estava em João Pessoa.
Eu não sei te falar de Joana porque eu não soube de Joana, porque não tive capacidade nem de falar o nome dela — durante um curto período por conta da raiva, mas logo depois por vergonha. Foi só depois de dois anos que eu perguntei de Joana para Catarina. Ou foi Catarina que me falou gratuitamente da morte da mãe de Joana, porque ela sabe que eu não sei aguar as plantinhas direito?
Caos, um amor natimorto e ruminação
Eu sei que tudo na vida é incerto.
(E se você pensa diferente… aguarde.)
Mas tem situações em que a gente se joga e situações em que de repente nos vemos nelas…
Uma coisa é incerteza, outra é caos.
É muito fácil olhar hoje para o que aconteceu e dizer que “não tem nada bom nem ruim na vida, é tudo aprendizado”. É confortável dizer que as lágrimas vão lavar as dores quando é o outro que está chorando para tirar o azeite de pimenta dos olhos. Deve ter sido muito cômodo, para quem quis falar algo sobre o assunto, me dizer a obliteração abrupta de minhas amizades foi um livramento. Apesar de que não houve tantas pessoas com quem eu pudesse compartilhar essas questões.
Porque, realmente, é tudo aprendizado mesmo.
Realmente, as lágrimas lavam mesmo.
Realmente, foi livramento mesmo.
Mas o aprendizado só se consolidou com os anos.
As lágrimas que aparecem são só fração do ardor.
E compreender? O coração é um retardado mental.
Eu não fui onde fui por que queria ir a algum lugar. Eu me vi inseguro e relutante em caminhos que eu desconhecia, porque eu estava fugindo de tantas coisas que eu simplesmente não poderia estar em qualquer outro lugar.
Seria poético mentir, mas não direi que “deixei a vida me levar”. Porque existe uma diferença entre deixar levar e ser levado. “Deixa a vida me levar” é para quem sabe para onde vai e entrega, ou quem não sabe para onde vai e entrega… mas há a entrega. No início eu não sabia para onde queria ir e não tinha noção do quanto eu não sabia. Eu não assumi nenhuma dessas posições e certamente meus receios, medos e ansiedades eram maiores que a entrega.
Eu não deixei a vida me levar. Eu fui levado. Eu fui tão levado que nem sabia dizer se era à revelia ou simplesmente deriva.
O único ambiente de alguma ancoragem que eu tinha era o centro espiritualista. Mais especificamente, Zé e as ideias dele. O lugar e as pessoas simplesmente vinham no pacote. Se minha indiferença a vículos sociais não fosse tanta, eu teria feito amizades ali desde o começo, mas por vários anos eu “apenas” cultivei vários colegas.
Eu não tinha disposição para interagir. Inadequação social sempre foi um mote, especialmente depois que cheguei em João Pessoa, quase três anos antes de mandar a primeira mensagem para Joana. Pois foi aí que passei a chegar em novos ambientes preferindo ser odiado do que tentar ser acolhido e enfrentar rejeições. Ou agia com indiferença, com uma certa frieza e distância às iniciativas de socialização dos novos colegas. Sempre educado, claro, com um profissionalismo amigável que me faz ser querido por onde passo.
Mas nesse período eu estava mais recluso que o comum, enfrentando a fase mais aguda de sintomas físicos e psicológicos de abstinências químicas. Leigo, pensei que fosse sintoma de adaptação mediúnica, mas ao pesquisar o manual de farmacodependência da OMS eu descobri que era abstinência mesmo. As mais violentas são de álcool e nicotina.
Insônia. Lapsos de memória recorrentes. Dormindo na hora que precisava acordar e perdendo os despertadores no volume máximo quando precisava levantar. Com oscilações de humor que alternavam entre desesperos, raivas e tristezas profundas.
Tentando processar a dor da perda de Joana.
Sem os amigos que sempre tivera.
Sem os novos colegas que fiz na Universidade.
Deprimido mesmo, já há seis meses flertando diariamente com a ideia de desistir do curso de graduação.
Foi aí que surgiu um anjo na minha vida…
Alice
Conheci lá no centro espiritualista.
É uma pena, realmente, que eu ainda não estivesse à altura das intenções honestas, emoções angelicais e transparência direta que Alice me ofereceu. Tadinha.
Não é que ela fosse exatamente um anjinho… Eu é que não gostaria de passar cinco minutos de sparring com ela no Muay Thai, que eu tenho amor à vida. Uns anos depois de nosso relacionamento ela tinha ingressado nas forças de operações especiais da polícia civil, “descendo o cacete em quem merece” (pra não dizer bala, né Licinha?).
Mas comigo sim, ela era um anjo. E não é só seu coração que merece menção, porque eu nunca pequei pelo senso estético. Na verdade isso até me custou caro mais à frente, com Demétria.
O trágico de Alice é que ela realmente não fez nada de errado, nem se propôs a jogar jogos em que nos machucássemos. Pelo contrário, minha determinação em finalizar o relacionamento foi exatamente oposta ao afeto que ela entregou.
Frente ao que enfrentei, não consegui fazer diferente. Tínhamos tudo para dar certo…? Nós sim, mas naquele momento eu não tinha nenhuma estrutura interna, de nada mesmo. Pessoa certa no momento errado, Alice? Ou pessoa certa no momento interno errado é só uma maneira evasiva de dizer que não era a pessoa certa?
Disco riscado
Você já conversou com alguém e teve a impressão de que não estava mais realmente conversando com a pessoa? Que, quando chega em determinados assuntos, as falas parecem menos com uma conversa e mais com você falando com uma vitrola que chegou na parte em que o disco está riscado? riscado? riscado?
Parecia mesmo uma pessoa pensante falando, desenvolvendo as ideias… mas chega num ponto em que o desenvolvimento para e qualquer tentativa de avanço faz a pessoa voltar. voltar. voltar. voltar.
E quando não é só com a fala, mas com o comportamento? É ainda pior, porque às vezes a pessoa avança nas ideias, concorda com as necessidades de mudança… mas o comportamento não muda. Ele só repete. repete. repete.
Como é que se argumenta com um comportamento?
E o que fazer comigo, quando eu me percebo num espaço de disco riscado? Quando, de repente, ao me dar conta do que fiz, percebo que fiz exatamente o que não queria mais fazer? Com toda uma sofisticação que eu nem pensava que seria capaz de implementar?
Isolamento
E eu passei um tempo assim, indisponível para vínculos românticos.
Voluntariamente, neguei poucas oportunidades que surgiram.
Mesmo que incapaz de renunciar do afeto dos toques.
Preferi estar só. Essa é uma contradição doída.
E ainda assim, eu preferi sentir essa dor.
Era melhor que machucar alguém.
E assim foi, por quatro anos.
O que me atormentou durante todos esses anos é que, por mais horrível que eu classificasse meu comportamento com Alice, eu sempre tive a impressão que havia sido pior com Joana. E isso ficou cada vez mais visível, por que com o passar dos anos e ajudou a mudar minha maneira de pensar e agir. E a cada progresso pessoal que eu galgava, me doía cada vez mais o contraste entre o que agora eu já conseguia fazer melhor e o muito pouco que pude fazer de bom a Joana.
Por tentativa e erro, construindo ilusões e atravessando decepções, eu fui me conscientizando do que eu queria e o que eu não queria em um relacionamento romântico (não apenas um relacionamento “afetivo”, mas também romântico, significativo, longevo). Esse processo é a base fundamental do entendimento que alcancei após mais de uma década com a mente praticamente aprisionada à recorrência de pensamentos e reavaliações sobre tudo que tive e não tive com Joana.
A vida é uma senhora lavadeira.
Lavadeira das almas.
Por sinal, você sabia que as senhoras lavadeiras costumavam bater a roupa na pedra, para tirar o grude da peça?
Esse período com Alice e logo após ela foi meu primeiro tempo de molho, antes das primeiras esfregadas. Antes de conferir o estado e descer a peça na pedra. Esse processo de depuração hoje é claro para mim, mas ainda me levanta uma incógnita…
Seria uma necessidade pessoal de autoflagelamento, eu viver alguma desilusão ou outra? Um perfil de aprendiz da vida que só aprende efetivamente pelos tons da dor, com narrativas de penitência? Ou seria apenas justiça divina, lei de causa e efeito, karma?
Sinceramente não sei. Levo todas essas possibilidades em consideração. E considero essas possibilidades por conta do que aconteceu. E depois de quatro anos de isolamento voluntário, ela foi a primeira coisa que aconteceu…
Berenice.
(parte 5 em 29/08/2026)
É isso que você esperava depois de eu ver Joana pela última vez? Como está sua jornada aqui na saga de O nome dela é Joana?
© 2026 Theo Sant’Ana. Este texto é protegido por leis de direitos autorais. A reprodução total ou parcial não é permitida sem autorização expressa do autor.



