Por que eu amo Linking Park há mais de 20 anos (com Zero previsão de divórcio)
A gente ficou brigado por um tempinho, mas depois que o Chester morreu nós reatamos para valer.
Eu me apaixonei, até o dia em que achei eles meio enjoadinhos… mas quando eu entendi que eles realmente estavam expressando destilados psiquiátricos da condição humana, reatei os laços pela admiração. E segura, que eu já te digo o que exatamente eu quero dizer por “destilados psiquiátricos da condição humana”.
Eu conheci o álbum Meteora numa viagem a Parati em 2003, em que os dois sobrinhos da amiga da minha mãe, que nos hospedou, estavam loucos ouvindo o CD novo que eles tinham comprado. Não lembro o nome deles dois, nem das tias deles (com o olhar de hoje acho que elas deviam ser um casal, mas na época eu nem cogitei a possibilidade, além de o meu gaydar sempre ser meio quebrado), nem da prima linda deles. Mas o importante é o que fica: dali para frente eu conhecia Linkin Park.
Eu lembro da sensação de ouvir a ponte de Faint, faixa 7 de Meteora, pela primeira vez (1:45m et seq.). Que afronta! Podia mesmo uma pessoa gritar daquele jeito, como se estivesse nos últimos momentos na cadeira elétrica em um matadouro, e seguir normalmente para a próxima faixa? Tá louco… Toca de novo!
É bem o que eu já disse na minha defesa ao rock pesado, sobre a agressão sensorial intencional ao ouvinte. Recomendo a leitura da defesa para sacar essa ideia. Aqui eu vou focar na minha apreciação catártica a Linkin Park.
Foi amor à primeira vista.
Eu sou do tipo de pessoa que coloca as músicas para repetir. Mas numa época em que a gente mal tinha acesso à Internet discada… aí é que a gente ouvia mesmo o álbum várias vezes seguidas (o álbum era um CD físico, gente!). Ou pelo menos dava conta de ouvir o álbum completo, sem pressa ou recomendações intermináveis do que mais ouvir nos streamings. Vou colocar a menção honrosa a Numb, só por que o José Renato gostava em especial dela:
Eu tenho certeza que eles ajudaram 90% dos millennials a atravessar o ensino médio e final do ensino fundamental.
Que fúria insana o Chester Bennington gritava, que revolta comprimida eles gravavam nas músicas. Era a frustração do bullying que a gente enfrentava, que tava saindo do tocador de CD. Como é que ninguém entendia? Nem a gente entendia. A gente nem tinha “catarse” no nosso vocabulário. Mas sentíamos a necessidade de ouvir.
Minha lua de mel com Linkin Park durou uns 7 anos.
Depois de conseguir a minha própria cópia de Meteora (de 2003), acabei descobrindo numa loja de CDs (outros tempos, meus caros, outros tempos) que já existia Hybrid Theory (2000). E esses dois álbuns, juntos com Reanimation (2002), para mim ainda são a essência do que é o “estilo Linkin Park”. Linkin Park Raiz, sabe?
A pegada mais clássica e punk da veia do rock em Minutes do Midnight (2007) me foi muito bem vinda, junto com as experimentais mais calminhas (Leave Out All The Rest, Shadow of The Day e In Between), focadas em rap crítico (Hands Held High) e também as mais contemplativas (The Little Things Give You Away).
E hoje eu até reconheço todas as experimentações como fases progressivas e válidas de uma mesma banda e respeito a ousadia que eles tiveram em sempre inovar o estilo… Mas quando eles chegaram com A Thousand Suns (2010), eu não senti esse brilho todo. E depois de Living Things (2012) eu simplesmente não fiquei mais animado para acompanhar as novidades. Tanto fazia se eles lançassem algo novo ou não, eu não fiz mais questão de ouvi-los. Não desgostei deles, entenda… Só brochei mesmo.
Aí eu parei de gostar de Linkin Park…
Eventualmente eu parei de escutar os caras. Fui esfriando de 2012 para frente, mas lá por volta de 2013 e 2014 eu quase não ouvia até mesmo as músicas que eu mais gostava deles. Porque agora eu nem gostava tanto assim. Normal, né? Fases passam.
Foi só quase 10 anos depois que eu vi um resumo da crítica do Regis Tadeu, que odeia Linkin Park, que ressoou bastante com o que eu senti naquela época: mesmo que conseguissem soar pesado e imprimir uma agressividade melancólica ao som, eles não tinham a mesma agressividade sonora de Deftones ou Korn; nem a profundidade lírica de lançamentos contemporâneos ali do início dos anos 2000, de Korn, Limp Bizkit, Slipknot e Papa Roach.
Enfim, o Regis Tadeu soube argumentar com o seu repertório e experiência o que eu tinha sentido: no fim das contas, Linkin Park era um negócio pesadinho tentando se sustentar numa choradeira adolescente. É legal sim, mas chegou a hora de seguir em frente.
… até o dia do suicídio.
Mas o Chester se matou em junho de 2017.
Pera.
Para.
Ouve de novo.
Por que agora você sabe que, em retrospectiva, aquela expressão toda do Chester Bennington eram gritos de um suicida. De repente as letras, que me pareceram elusivas e abstratas, começaram a se parecer mais com relatos realistas de um quadro psiquiátrico. A “choradeira adolescente” frente a temas aparentemente pequenos como relacionamentos abusivos e inadequação social pode até não ter o maior dos pesos líricos, profundidade ou robustez crítica, mas eram de fato um relato de alguém com um nível de sensibilidade que realmente não suportava o que estava relatando em seus gritos distorcidos e também em suas belas cantorias (ouça o cover de Rolling In The Deep por Linkin Park, para conhecer o lado mais angelical do espectro vocal do Chester).
Uma expressão artística que não era drama barato… eram destilados psiquiátricos da condição humana.
Nunca, nunca, nunca mais… eu ouviria a ponte de Given Up (1:55 et seq.) e toda sua letra da mesma maneira que antes. (Dentre outras músicas, mas essa aí representa muito bem o que quero ilustrar.)
E você sabe que tipo de pessoa pode se sentir sobrecarregada ou sensível demais em relação a coisas aparantemente normais ou comuns, correto? Não? Vou te dar uma dica:
Até o final de 2017, eu ainda não tinha devotado minha atenção para escutar de novo a discografia (e alguns dos álbuns pela primeira vez). Mas revisitei o que eu já ouvia com um olhar completamente diferente. E eventualmente ouvi sim todos os lançamentos da banda.
A pegada mais metal, com rudimentos militares na bateria, de The Hunting Party (2014)? Muitíssimo bem-vinda, em especial All For Nothing e Guilty All The Same (que amostração insana é aquela na bateria dessa segunda, minha gente?).
E pensar em One More Light (2017)…
O álbum é super emotivo, abrindo espaço para explorar novos lugares de sensibilidade emocional, logo antes do suicídio, que acabou com a banda.
Faça as contas.
Acompanhei tudo dali para frente, inclusive os lançamentos póstumos de Lost e a versão de 20 anos de aniversário de Meteora. Inclusive chorei ouvindo algumas letras (principalmente Lost), por conta desse insight do olhar retrospectivo ao que Chester estava expressando naquelas músicas.
O fato é que minha apreciação artística pela banda redobrou e voltou de forma indelével em meu coração, independente das preferências que eu tenha por álbuns ou faixas específicas.
Mas… e depois da Emily?
Sobre a entrada da Emily Armstrong em 2024 no lugar de vocalista principal que fora ocupado pelo Chester Bennington (e também o novo baterista, Colin Brittain, mas a galera sentiu muito mais a Emily, claro), preciso que você se atente para dois detalhes importantes da evolução artística do Mike Shinoda, que era e continua sendo o power house de composição, criação e produção da banda:
O álbum Post Traumatic: essa é uma expressão extremamente íntima e nítida da dor e sofrimento profundos que ele enfrentou na lida com o luto à morte de Chester Bennington, seu grande amigo (em especial a faixa 2, “Over Again” é um relato bem específico disso). É uma lida com a fissura que fez Linkin Park parar, sem previsão de retorno. Vale a pena ouvir inteiro e dissecar as letras.
O sorriso dele (e de toda a banda, diga-se de passagem), nos tours, entrevistas e making ofs desde a retomada das atividades da banda, com a Emily Armstrong e o Colin Britain.
É só isso mesmo.
Eu não preciso, e seria um trabalho desnecessário, dizer na minúcia o quanto o álbum From Zero (2024) é maravilhoso, por que ele é uma carta de amor a toda a trajetória de evolução artística da banda, de quando Chester ainda estava entre nós. Não é só a excelente qualidade, pura e simples, das faixas em si, mas o cuidado que o grupo teve em referenciar as origens da banda, de antes de seu nome ser Linkin Park; e em honrar toda a progressão de estilo que o grupo teve até então, espelhada de forma brilhante nos estilos, pegadas e referências (umas mais sutis e outras mais explícitas) das faixas do novo álbum. Tem um artigo maravilhoso da Atwood Magazine que destrincha tudo isso.
Até o Regis Tadeu, que odeia Linkin Park, opinando sobre por que Linkin Park melhorou muito com a Emily Armstrong no vocal e Colin Brittain na batera, diz que ficou surpreso com a qualidade do renascimento da banda, agradecendo o fim do “chororô patético” e “angústia de condomínio” da era Chester. Tudo bem que o Tadeu gosta de chutar cachorro morto e ficar dando tapa na cara de quem discorda dele, para gerar engajamento. Não é para tanto, né Regis?
Eu vejo um belo renascimento da banda, em sua nova fase. A voz da Emily não tem som de voz do Chester, mas tem sim som de Linkin Park.
Mas ainda que você, leitor(a), genuinamente não goste da pegada da Emily Armstrong e a (suposta falta de) contribuição que ela traz à banda… Guarde sua opinião e opte pelo silêncio, querido(a). E vá ser feliz ouvindo apenas os álbuns mais antigos. Deixe a banda e os fãs serem felizes. Não encha o saco. É só o que faltava mesmo, hater negando superação emocional alheia e sucesso comercial que comprovam que a banda foi devidamente ressuscitada com uma fanbase altamente leal e renovada.
(Mas se quiser discordar nos comentários, pode. Lá eu vou responder com decência, sem mandar ninguém se danar ou coisa do tipo, fiquem tranquilos(as). Quem me conhece sabe que sou fofinho nas notes e comentários.)
Enfim,
se você quiser saber por que eu gosto tanto de variantes de rock, em especial os destilados psiquiátricos da condição humana, te convido a ler o artigo Em defesa do rock pesado. Mas preferi falar tudo isso aqui em separado porque Linkin Park é um tópico à parte nesse caldo todo. Você também gosta? Me conta o que achou dessa carta de amor à banda, quero saber de ti.
Esse foi um ensaio, uma opinião existencial com reflexões internas, de A Longa Jornada de Mim.
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