Vem, te faço um café.
De domingos que não são, mas poderiam... ah, mas poderiam... ser +18.
Eu sei que você vive alternando entre seus trabalhos em Natal e Recife, mas ainda fico surpreso quando te chamo para um café aqui em casa, em João Pessoa, antes de chegar na sua no Cabo Branco… e você vem. Foram pouquíssimas vezes, mas apenas uma já me surpreenderia. Com sua distinção e recato de madame, sandálias à porta, você entra descalça usando uma de suas saias que vai até o joelho.
Eu sei o contorno exato de todas as curvas que a saia cobre. Mas mesmo que não soubesse, o comprimento da saia é incapaz de esconder a média largura de suas ancas, que graciosamente se integram à sua cintura de pilão, delineada por sua regata, justa mas discreta. Além de que é bonita, a saia.
Você tem peito para a autoestima básica de duas mulheres, mas eles não parecem exagerados na delicadeza do seu corpo. Talvez por que você seja da minha altura, pelos um metro e oitenta, e pratique diligentemente pilates, só para não sucumbir ao sedentarismo. Você reclama que é velha, só por que é uns quatorze anos mais velha que eu, mas que o pilates te salva das dores. Mas ele também me agracia com a vista de sua silhueta.
Passo o café e você desembrulha o que trouxe da estrada, enquanto conversamos.
Nos recomendamos filmes e séries, porque já não vou para sua casa ver filmes contigo. Não vimos mais filmes juntos, nem lá nem cá. E quando você vem é da sua casa pra minha, mas a intimidade no trato é a mesma de quando eu acordava contigo na sua cama.
E eu falo qualquer coisa.
Invento qualquer assunto só para ter o ensejo de passar as costas lisas de minhas mãos calejadas sobre seu rosto macio, para poder te acariciar atrás das orelhas enquanto você me responde ou permitimos um silêncio contemplativo.
Por que não é sobre o que vamos conversar. Não é sobre o que tem acontecido comigo ou contigo, nem o fato de que você sempre diz que gosta do meu café. Por que os cotidianos sempre são a mesma coisa. E eu sei que o café é bom, sou eu que sempre faço e tomo apenas uma dose por dia: a garrafa.
É que, mesmo com e apesar dos assuntos, eu sei que sentado posso te abraçar ereta, com meu rosto recostado em seus seios. E você não apenas deixa, mas me alisa as costas com uma mão enquanto faz cafuné com a outra. E se eu aperto suas costas, quadril ou coxas contra mim, você levemente me aperta de volta e imprime mais intensidade nos dedos à minha cabeça.
Sem nenhuma expectativa de te levar para o quarto ou nos despirmos ao sofá. Sem nenhuma cobrança de dizer nada ou explicar.
É que eu sei que não preciso ter medo de apoiar minhas mãos sobre suas pernas enquanto conto um causo ou uma piada ou falamos qualquer coisa, até mesmo por debaixo da sua saia. Você não abre as pernas nem tira minhas mãos de onde estão, alisando de lá do meio da coxa para cá aos joelhos, de novo e de novo.
E eu sei que você sabe dar limites.
Mesmo quando dormíamos juntos, você sabia tirar minha mão de onde eu ia te tirar o sono, porque precisava sossegar o facho. Sem dizer uma palavra. Era o limite do seu respeito, não uma rejeição.
Mas você não me impede nem se abre, enquanto conversamos e tomamos o café. E mesmo que você delineasse limites claros, não doeria. E é por isso que me permito ser… um pouco ousado contigo. Por que eu sei que você vai falar ou fazer perguntas, se incomodar. E dar limites, se quiser.
E às vezes me pergunto até que ponto você não me impediria.
E se, quando você estivesse sentada, eu te olhasse de frente e fixamente aos olhos, enquanto começasse a apertar de leve o interior de suas coxas, com todos os dedos; fazendo com que o punho, abrindo, avançando e fechando, ganhasse espaço entre suas pernas ao se aproximar do seu centro? Será que eu conseguiria chegar até o ponto em que a curva entre meu indicador e polegar se encaixassem em sua virilha? Deixando você fingir que está distraída com a conversa?
E se, quando você estivesse de pé e eu sentado, eu deslizasse minhas mãos lentamente por debaixo de sua camiseta, com as pontas dos dedos anunciando as palmas calejadas de minhas mãos, da frente do seu quadril, pela barriga e cintura, até elas te pressionarem levemente para mim, apoiadas entre suas escápulas, como eu já costumo fazer de leve quando estás vestida?
E se eu resolvesse segurar o cabelo de sua nuca e não soltar até que minha outra mão estivesse te apertando por debaixo do sutiã? Independente de quanto tempo isso levasse? Independente do que eu tivesse que fazer para que você me permitisse isso?
E se eu te convidasse para a varanda, só para te colocar de pé, mas no meio do caminho te rodopiasse com suavidade ao lado, para te prensar na parede? De leve, no início, até que seus suspiros precisassem tremer para te permitir a respiração. E que, por algum motivo estranho, você não me empurrasse para longe?
E se eu tivesse mais suavidade e empregasse mais as pontas de dedos por debaixo de sua saia quando você está de pé e eu sentado, para saber sua reação no dia em que eu finalmente ultrapassasse o meio da parte de trás de suas coxas, até onde eu costumo ir? E, eventualmente, te pegasse firme da parte interna da perna às popas?
Pois é…
Mas eu não pretendo fazer nada disso. Embora tenha pensado nisso algumas vezes. Eu não tenho medo de ser contigo, mesmo sem saber exatamente o que somos. Mas não pretendo de fato fazer nada disso.
Mesmo com a maciez morna e magnética de sua pele e seu perfume; que não é o perfume que você usa, é o seu perfume, da sua pele.
Você e sua presença são tão gostosas, em tantos sentidos, que eu alterno sem dificuldades entre querer te devorar inteira por debaixo dos panos, antes de tirar minha bermuda… ou, simplesmente me deixar derreter em seus braços, sentindo minha alma escorrer em sua maciez.
Mas não…
Não vou te devorar nem te comer, nem te provocar para tanto.
E eu sei por quê.
É por que o seu referencial ainda é minha única luz na escuridão.
Você soube preservar a dignidade e o diálogo, até o fim. Me chamou para conversar e fazer as perguntas que nos premitiram entender que nossos quereres, para cada uma das vidas, nos colocaram em divergência. Meu momento profissional e nossas perspectivas de futuro eram incompatíveis. E manter o relacionamento só aumentaria a dor certa da separação que estaríamos postergando.
Então terminamos.
E há vários anos, nunca mais voltamos.
E nos vimos poucas vezes.
Mas no dia to término, após constatado e afirmado nosso fim, você ainda puxou uma conversa amigável, com café e bolachinhas, por mais de meia hora. Continuamos amigos e corteses depois disso.
E, então, você…
Você se tornou o que, até o presente momento, é a única estrela incandescente no céu escuro, sobre um fosso de pretensos romances evitativos. De mulheres já traumatizadas, que ainda não sabem como lidar e o que fazer de si mesmas, somadas aos meus próprios traumas, padrões evitativos e desafios na aproximação romântica.
Mas você brilha.
Mesmo quando meus olhos estão em solo, esquecidos de sua luz singular, você me aguarda para os momentos em que a dor da angústia das desilusões românticas me levam a cabeça para trás e o meu olhar acima, para finalmente te ver.
As breves páginas de nosso romance estão dispostas como pétalas de uma rosa, arrematadas no miolo do fim que você nos proporcionou, que ainda exala o perfume de seu afeto.
Ainda que nós não tivéssemos nos visto mais, nos poucos encontros que tivemos; seu referencial prevaleceria como de fato já prevalece, como comprovação prática, vivida, de que é possível sim atravessar um romance, com começo, meio e fim, sem despedaçar os estilhaços de meu peito a se perderem pelo chão.
Você, Clarice, é tudo isso pra mim.
Ironicamente, minha evitância é o melhor que tenho a te oferecer.
Por que tenho medo que o fim de um novo começo trinque e irremediavelmente rache a redoma que guarda nossa rosa, num protegido recôndito de meu coração.
Então prefiro ficar aqui, entre a gratidão ao que temos e o receio de perder isso só porque um dia o tesão gritou mais alto que a cautela. Ou que a cabeça de baixo gritou mais alto que a de cima.
Não é só “mais seguro”, manter uma distância que funcione na nossa intimidade. É um desejo de preservar um referencial que me retira de surtos rompates pessimistas sobre romances.
Nós dois estamos sós e sabemos disso. E eu sei, pelas nossas conversas, que não sou a grande paixão da sua vida e, cá entre nós, idem. Isso importa pouco, frente ao que você é e representa para mim.
E é meio agridoce, saber que você é um dos únicos contextos em que posso trocar carinho de forma direta, honesta e até… platônica (?). Mas ainda assim, fico dividido entre o medo de sucumbir a tentações eróticas ou te entediar, caso você queira algo… a mais, quando vem aqui.
Mas venha. Qualquer domingo desses, venha. Passe aqui em casa. Pra conversar mesmo, sobre qualquer coisa, como já conversamos. Te faço um café.
Se você quer um ensaio filosófico que dialoga com essa noção de afeto que falei aqui de Clarice, leia:
© 2026 Theo Sant’Ana. Este texto é protegido por leis de direitos autorais. A reprodução total ou parcial não é permitida sem autorização expressa do autor.



Que delícia de texto, Theo. Me lembrou imediatamente “Eita”, do Seu Pereira, e “Fale Mais”, do Lagum… esse lugar estranho entre intimidade, desejo, memória e cuidado.
E acho muito bonita a maneira como você escreve tensão sem fazer dela necessariamente uma promessa de consumação. O afeto como referencial, quase como um lugar pra onde voltar. Adorei!
Como somos equilibrados diante de quem não nos arrebata, né? Eu sinto que minha terapia funcionou quando encontro um vínculo bom o suficiente para ficar, por vezes até se apaixonar, mas sem tirar o chão. O problema é que, na racionalidade, dificilmente nos conectamos de verdade com alguém. A idealização é uma medida de sobrevivência da espécie humana 😂