Afinal, o que é amor?
(Ou melhor, quem aguenta dar as mãos para enfrentar os raios do alvorecer?)
Sim. “Amor romântico” mesmo.
Eu tinha aqui um rascunho de artigo.
Eu ia pegar uns insights legais de neurociência aplicada a relacionamentos, que aprendi lá com o Eslen Delanogare e me foram úteis. Na teoria, ao menos. Um pequeno compêndio de reflexões professorais.
Ah!
Mas que farsa seria, publicar aquilo.
A verdade é que eu não faço ideia.
Eu já não sei mais qual é a diferença ou mesmo se há diferença. Entre carência e querer afetos; entre aceitar minha solidão e ser evitativo; entre me apaixonar e manifestar apego ansioso; entre idealizações inalcançáveis e critérios mínimos para uma relação saudável.
Aí, no miolo disso tudo, achei melhor me perguntar: o que é amor? Pelo menos para parar de falar em “amor” numa polissemia ensurdecedora, que mata o entendimento nas conversas, né?
A galera falando como se coleção profissional de traumas românticos e frustrações amorosas fosse sinônimo de “amor”. Aí falam que querem ou não querem mais “amor”, sem saber mais se referem-se ao amor ou aos traumas, isso quando já não fundiram esses significados num amalgamado só. E depois não sabem porque a vida “amorosa” espelha os significados da confusão semântica que fazem.
Please.
Lentes quebradas
Quando o romance dá errado, é ótimo.
Mas quando dá certo antes de dar errado, mata.
Quando não mata, até dá uma vontadezinha de morrer, que passa.
E aqui estamos nós, vivos.
Se você for sangue de barata, é ótimo.
Qualquer trauma no seu caderno espiral é escrito a grafite.
É só escrever alguma coisa mais forte por cima.
Ou arrancar a página.
Mas se você sente e entra no jogo para sentir…
É moleskine. E caneta tinteiro.
Não se arranca as páginas.
E até para rasurar, dá trabalho.
E as marcas ficam.
E as marcas que ficam começam a se tornar comprovação.
De que qualquer expectativa pode ser subvertida.
De que qualquer céu pode reverter-se a um inferno.
E quanto mais marcas, já não se sabe mais…
… se a confiança deve ser dada à introdução ou às repetições das rasuras.
E é assim que nasce a bad evitativa, para pessoas sensíveis.
De saber que se quer algum afeto, mas já começar a questionar se tem mesmo alguma validade esse querer. De se perguntar se vale a pena mesmo se sujeitar a uma aproximação só por necessidade de validação externa. Ou até mesmo por outros motivos. Ou sem motivos mesmo. Ou será que precisa?
Não por que queiram ser super-humanas, mas porque cada passo em tudo que já foi bom com alguém já está manchado com um trauma correspondente no assunto.
Aí passa a ser mais fácil invalidar as próprias emoções, porque é mais cômodo que correr o risco de se estabacar de novo.
É um saco.
Eu me esforço pra limpar as lentes da minha percepção, mas começo a ter a impressão que a vista não vai desembaçar. Parece que as lentes estão rachadas mesmo. Afinal, como é que cicatriza isso? Como faz para um vidro trincado, rachado e estilhaçado voltar a ser liso e transparente? Transparente, ao menos?
Tem que reconstruir? Será que ainda faltam algumas pancadas para terminar de quebrar a vidraça, para poder trocar por uma nova? Ou ainda tem que triturar e pulverizar os cacos do chão, para tocar fogo no pó e fundir um vidro novo?
Talvez as lentes estivessem quebradas desde cedo.
Pff, “talvez”.
Seguramente já estavam, desde pequenininho.
Mas no quesito romance, dá pra traçar a linha de largada ali pelos 5 anos.
Sempre fui apaixonado. Sempre quis uma namorada. Mas tinha um problema: mesmo quando chegou a época em que meus colegas pensavam em como pegar as meninas e dar um beijo, eu nem pensava em me aproximar. Afinal… sobre o que eu iria conversar com elas?
Seguramente isso foi motivo de piada.
Mas houve outros motivos.
Houve vários outros motivos.
Ali pelos meus 10 a 12 anos, eu não tinha e-mail. Nem acesso a nada que requerisse um e-mail. Nada. Mas a comunidade no Orkut chamada “Cala a boca, Theo!” tinha cerca de 300 membros quando a professora finalmente soube e interviu. Com dezenas de tópicos internos, como “piadas sem graça do Theo”. Vociferavam em uníssono o nome da comunidade, algumas vezes por dia, por esporte.
A sala de aula em que eu estudava tinha cerca de 25 alunos.
Dos quais apenas 3 eu conseguia considerar amigos.
E por trás deles, mais de 200 anônimos nos fóruns.
Imagine, viver todos ambientes orquestrados à exclusão.
Me mudei para 3 mil km de distância, para ver se escapava.
Malditos.
Tá, eu até entendo.
Afinal, eu era bem diferentinho mesmo. E nem vou colocar tudo na conta do diagnóstico tardio de autismo, mas até que poderia. Mas seria uma maneira de passar pano para mim e usar uma retórica de moral alta para acusá-los. Mas eu era bizarro mesmo. E difícil de lidar. De verdade. Mas isso não significa que eu passe pano para eles não (por favor, não seja bestinha de pensar que eu faria um negócio desses ou que sou incapaz de rancores e mágoas; hoje em dia eu até evito, mas sou capaz sim).
Mas se esse foi meu nível de sucesso com os coleguinhas em geral…
Agora você sabe por que eu só encontrei minha primeira namorada aos meus 18 anos.
E talvez agora faça mais sentido umas coisinhas que eu falei em um outro momento, sobre masking…
Mas não desisti.
Daquilo lá… que chamam “amor”.
Não sei se isso faz de mim um idiota, um masoquista, ou uma pessoa normal… também não sei o quanto pessoas normais (maioria, estatisticamente falando) são burrinhas ou masoquistas. É relativo, né?
Mas ainda me pergunto:
O que é amor?
Tem um Zé que eu conheço (que não é o José Renato), que iguala a noção de “amor” à de “respeito”. Respeitar é amar. E transcende a noção de “romântico”. Muito boa. Pra mim, já dirime a questão, num nível de abrangência bem elegante.
Mas eu quero falar do tal do “amor romântico”.
Pois mesmo sem ter certeza se eu quero, eu ainda me pergunto como se quisesse, o tal do amor:
O que é amor? É paixão? É longevo? É lúcido?
É paixão?
Relacionamentos não são sexy.
Conquista é sexy.
Mas conquista envolve uma certa dose de adrenalina. E relacionamentos funcionais e saudáveis deixam de ser sustentáveis se forem forçados a existir sob doses crônicas de cortisol. Eu até poderia continuar dizendo que me refiro aqui a “amor romântico”. Mas se romance for mesmo as labaredas iniciais que criam as brasas duradouras e incandescentes do amor, então “amor romântico” é uma contradição em termos. Por que um fica, e o outro passa.
Os friozinhos e borboletas na barriga; as palpitações antes de pequenas ações que são fruto de dias de overthinking; até que o ritmo da aproximação não permita tanto tempo assim pra pensar… E vamos assim mesmo, seguindo o fluxo das ondas, com seus altos e baixos… e ficamos embasbacados e plenamente realizados com a presença do outro… Isso tudo, eventualmente, passa. Seria até estranho se não passasse.
Isso tudo, embora possa ser condição necessária para sua construção inicial, não é a base que sustenta um relacionamento duradouro ou significativo. Não pode ser. Porque passa. Claro que um relacionamento saudável envolve conquistas, até diárias, em novos cenários e níveis de intimidade. Mas são outros níveis e cenários. Nada será igual ao calor da incerteza do início. Um fica, o outro passa.
Ou seria então o amor esse ciclo repetitivo de busca dessas emoções? Efêmero, de simples descrição e inefável vivência? Estava certo o nosso querido poeta bêbado?
“O amor é como uma névoa que queima com a primeira luz de realidade.”
[Será, Bukowski?]
É uma descrição bem cirúrgica, mas o que Bukowski chama de “amor”, sabemos ser “paixão”. Amor mesmo me parece ser estar com alguém que não solte a mão enquanto assistimos de propósito os raios do alvorecer (ou seja, aprender a permanecer unido após aquele pico dopaminérgico, quando movimentos de aproximação e manutenção da proximidade não exigirem mais adrenalina). Muitos pensam que os maiores desafios estão na noite escura. Quando, em verdade, encontram-se no raiar da lucidez.
Um fica, o outro passa. E te digo que alguns dos meus amores ainda queimam no peito, sem incomodar nem doer, mesmo que a vivência íntima, afetiva, emocional e erótica já não se manifeste. E dá pra sentir que é mútuo, com algumas dessas pessoas. Mas passou-se o momento e o contexto, mesmo que tenhamos terminado, em paz ou não.
Um fica, o outro passa. Mas é possível que o amor fique ali comigo e a pessoa também? Seria esse o tipo mais puro?
É longevo?
Olha, eu já comprei a ideia de que a construção de um relacionamento íntimo, inclusive erótico enquanto ainda tenho idade pra isso (por que até amizades têm níveis de intimidade, viu? Por vezes maiores do que aqueles que se têm com parceiros sexuais), deve ser… “pra sempre”. Sem data prevista de término.
E eu não vou me alongar em digressões para aprofundar os porquês das minhas opiniões… Mas faz sentido. Faz sim. Inclusive emocionalmente, porque é uma proposta de compromisso com uma promessa de que eu não vou me estabacar de novo. De que eu enfrentarei os desafios da convivência para honrar a presença daquela pessoa na minha vida. Sem perdê-la ou descartá-la (mentalidade incomum hoje em dia).
Além de que, uma hora ou outra, a atração física e erótica arrefece ou passa (considerando aqui, teoricamente, os longos prazos). Então faz sentido que construamos outras conexões com aquela pessoa, em outros aspectos que resistam à passagem do tempo.
Porque pode ser que, se der certo, doa menos. É uma possibilidade de fim da dor dos fins de relacionamentos românticos. Porque chega uma hora que o cansaço vence a paixão do apaixonado. Porque é ruim demais, abrir o peito só para sair catando os estilhaços no chão depois. É menos doído, interromper antes. E a possibilidade de ter algo significativo para sempre pode ser um ótimo chamariz.
Inclusive, em momentos em que não estou apaixonado, eu fico flertando com esses discursos. Digo até que romântico precisa ser niilista para ser casual. Até digo que poupe-me de mais ciclos sem permanência após a paixão; que prefiro ver anime de porrada, ficção reflexiva, drama, comédia romântica e alguma besteirinha eichi. Mas o apreço por essas racionalizações costuma fenecer quando me apaixono.
Mas olhe… não.
Longevidade não é condição para “amor”.
Todo mundo, no mínimo, morre (as coisas podem ser mais curtas do que gostaríamos, pelo óbito ou outras causas). Há sentimentos com potencial longevo que são tolhidos cedo e não é a curta duração que invalida suas vivências (na verdade nunca saberemos, pois não há contrafactual, mas sejamos otimistas). E é possível que a pessoa fique presa em um relacionamento abusivo por toda uma vida.
Então longevidade pode ter alguma coisa a ver com “amor”, porque é preciso tempo para o fogo da paixão baixar e vermos se a brasa do amor não apaga. Mas não parece ser condição necessária ou suficiente para sua existência.
É lúcido?
Aqui sim, eu tenho um feeling de que a resposta está por aqui.
Eu ainda não sei o que é, mas é alguma coisa pós, ou além-paixão. Ciente do fim. Ciente também do caminho, limitações, vontades e valores de cada um. Em respeito mútuo, independente do prazo de duração. Tem mesmo problema que o relacionamento seja efêmero, por reconhecimento de que o que tinha ali já se esgotou? Ou mesmo por escolha, ao começar? Ou mesmo antes disso? De propósito mesmo, reconhecendo que é possível um fim, sem a necessidade de pesar?
Até mesmo por que… o que é efêmero, se nossas vidas são breves lampejos na existência terrena?
E claro, o que eu disse acima pode se aplicar à construção de algo longevo. E eu quero algo longevo (ou, no mínimo, me habituei a pensar assim). Mas após algumas experiências, eu não penso mais que ser longevo é a única maneira de ser significativo. E sei que o fim não precisa sempre vir arrematado por traumas.
Clarice mesmo, pra mim, foi uma comprovação de que isso é sim possível. De forma equilibrada, respeitosa, com um afeto que ainda perdura entre nós, mesmo depois que o “relacionamento acabou”, após uma existência breve. Meu contrafactual anti-niilismo frente aos relacionamentos românticos, bálsamo primeiro para lidar com as frustrações e traumas afetivos… Clarice.
E é aqui que entrariam as checklists do Eslen Delanogare, sobre fatores comportamentais que aumentam a chances de encontrar uma parceira com mais chances de “sucesso” para construir um relacionamento funcional, saudável e significativo.
Mas isso fica para outro dia, se eu estiver otimista.
Por hoje, o questionamento é: o que seria melhor, ao fim da vida?
Lamentar amargurado porque não encontrei o amor da vida?
Sorrir saudoso para as boas oportunidades de amores que foram aproveitadas e já se foram, mesmo que ao fim eu quede só?
E eu sei, os mais bondosos e românticos de vocês diriam: Mas Theo, você não deveria colocar aí em cima a opção de que você encontrou o amor da vida?
Aham.
Na teoria. E ainda rogo por isso, mas começo a duvidar.
Mas por que essa opção não está listada ali? Você leu o início do texto, por algum acaso?
E assim, não tenho garantias… Mas você gostaria de ver uma parte 2 desse tipo de reflexão? Se moer um pouco, ainda sai caldo. Que parte daqui mais te atravessou?
Por fim, para reflexões sobre dignidade e expectativas em relacionamentos entre homens e mulheres nessa bagaceira toda, recomento:
Esse foi um ensaio de A Longa Jornada de Mim.
Gostou?
(Eu coloco minha alma e coração aqui toda semana. Toda contribuição sua, pontual ou recorrente, é bem-vinda. Já te agradeço!)
Por aqui eu falo de muita coisa que não é amor e paixão. Se você gosta de reflexões intimistas, histórias e contos, crônicas, opiniões existenciais, e ensaios, críticas e resenhas, de temas variados, com essa mesmíssima pegada de redação e uns lirismos a mais nos poemas, o ritmo é esse:
Um post por semana, aos sábados.
A grande maioria deles, gratuitos.
Poesia às quartas-feiras. Sempre gratuita.
A Longa Jornada de Mim só tem alma e propósito com vocês, leitores(as). Inscreva-se gratuitamente para participar da Jornada. Vou te enviar um e-mail de boas-vindas personalizado, tá? Não é aquele e-mailzinho padrão xexelento do Substack não. É para quem escolheu participar da Jornada mesmo.

P.s.: Se você quer participar e apoiar esse trabalho, existe uma forma: uma inscrição paga. Porque escrita artesanal, sem IA, bem cuidada e curada precisa de apoio sim. Pelo preço de um YouTube Music (e descontos para grupos), você tem:
Contato direto comigo, no chat de membros apoiadores, para fazermos uma troca mais próxima, em comunidade;
Um espaço de conversa exclusivo nos posts mais íntimos, um ambiente seguro e longe da vitrine dos comentários públicos;
Acesso ao meu processo criativo, o que eu leio, penso e sinto para produzir… coisas que ninguém mais verá em livros, posts ou notes;
E o mais importante de tudo…
Além dos benefícios da comunidade exclusiva de apoiadores, você está financiando as doses endovenosas de humanidade que chegam para todos que escolheram participar da Jornada. Inclusive os que ainda participam dela gratuitamente.
E isso importa, demais. Porque eu acredito que arte, reflexão genuína e expressão lírica, humana, sem IA, não devem ser um luxo. Por isso que mais da metade do meu conteúdo é disponível “de graça” pela graça mesmo. E você pode honrar esse trabalho comigo, com uma pequena contribuição e chegando mais perto.
Comece agora, com a assinatura padrão ou membro curador(a):
Se você quer saber dos descontos em grupo (com 10% de desconto por assento), segue o link:
E, claro, você pode dar esse presente para alguém especial:
© 2026 Theo Sant’Ana. Este texto é protegido por leis de direitos autorais. A reprodução total ou parcial não é permitida sem autorização expressa do autor.
P.p.s.: Para fazer essa publicação, eu usei o seguinte setup autoprovocativo, que é um dos 5 passos simples de uma linha de produção textual de um Processo Criativo Explosivo para sua escrita:
Para aprender como dar conta de mais de 30 rascunhos simultâneos usando uma linha de produção textual de apenas 5 passos, e como ter pelo menos 7 boas ideias por semana, de propósito, confira a publicação:


Teve alguém que perguntou em uma note minha se o amor existe. Não respondi, porque honestamente não sei. Pelo menos o romântico. Se existe, deveria doer tanto?
Ou, como você disse, a gente nomeia o amor a partir das próprias experiências, e aí o nome vira tão confuso quanto a vivência.
Se eu pudesse responder hoje, diria que amor é segurança. Não a segurança de garantia, de ter aquela pessoa ao lado pra sempre. Mas a de poder falar abertamente sobre coisas que só se diria a um amigo, sem pisar em ovos ou perder a própria identidade pra agradar, viver em estado de alerta. A segurança de deitar e dormir tranquilo sabendo que aquela pessoa vai te respeitar, esteja você presente ou não.
Clarice faz sentido exatamente aqui. Tem uma maturidade nessa parte, encerrar um ciclo sem precisar que seja tão doloroso e traumático.
Não existe perfeição no amor. Mas existe escolha. A escolha de estar ali todos os dias, não como cumprimento de tabela, mas como parceria. Uma atenção ao detalhe que reconhece o que o outro precisa antes de falar, porque a intimidade não é só a do corpo. É a da alma também. Ser vista.
Qual a parte que mais me atravessa? A das lentes rachadas. a gente passa tanto tempo tentando limpar o vidro, achando que é sujeira, que é o momento, que é a pessoa errada. Até perceber que o problema não é a visão turva. É que as lentes já vieram assim, e a gente aprendeu a enxergar o mundo através delas como se fosse normal. Lindo texto.
Eu sempre peço para as melhores oportunidades só chegarem até mim quando estiver pronta. Não adianta conhecer o amor da sua vida na época errada. E uma coisa que observei no seu texto e talvez você não seja assim, mas você pensa bastante e parece ser totalmente extrovertido. Será que estou certa? Belo texto, obrigada por compartilhar.